Paulo Silveira - CONTOS

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LEMBRANÇAS - Uma história sertaneja de amor 

 

Manhã belissima. Dessas manhãs que, normalmente, vêm depois de uma tenebrosa noite chuvosa. Cheiro bom de terra misturado com o perfume suave das flores campestres, cuidadosamente, transportados por cativante brisa. As árvores, todas elas, bem limpinhas. Estavam livres, enfim, da pegajosa poeira e de roupa lavada realçando, cada uma, sua bonita cor original. Fazia já algum tempo que elas não desfrutavam um bom e revigorante banho. Os pássaros em harmoniosa cantoria - uai-uai, trem-trem - saudando com mais entusiasmo o dia recém-nascido. Todo esse inimitável espetáculo oferecido, gratuitamente, pelo nosso Divino Criador. Oferecido a todos. Indistintamente. Mais belo do que esse espetáculo somente a nossa vida - enigmática sempre -, com a qual Ele também se incumbiu de nos brindar.

Adentrando essa cena e deslizando com certa dificuldade estrada a fora, um automóvel. Deslizava ora pra um lado, ora pra outro, pois o que antes era poeira transformara-se em achocolatada lama: viscosa e escorregadia. Carro novo, de luxo, totalmente desacostumado com essa estranha e incômoda sensação de embriaguez. Em seu interior, um único e solitário ocupante, Alfredo, que viera visitar um amigo. Esse último comprara, recentemente, uma fazenda por aquelas bandas. Alfredo não sabia se estava no caminho certo para a cidade, pois passara antes por uma encruzilhada. Tal preocupação encontrou sua sepultura quando um pouco mais à frente avistou um homem à beira da estrada. Homem de setenta anos, aproximadamente. Alivio.

Alfredo, cautelosamente, pára seu carro. Precavido, aquele homem afasta-se. Alfredo abre o vidro:

_ Bom-dia!

_ Bom-dia!

_ Por acaso, o senhor sabe me informar se estou no caminho certo pra cidade?

_ O caminho é esse mesmo. É só o sinhô tê atenção, mode que ai mais pra frente vai tê mais duas incruziada. Só tomá sempre o rumo da esquerda, que já, já, o sinhô vai chegá lá na cidade.

Alfredo observa o homem no seu linguajar simples, que o fazia lembrar de sua origem humilde. Seus pais, hoje falecidos, foram lavradores. Ele, com muito esforço e empenho próprios, conseguira tornar-se em um dos mais renomados advogados do pais. Dificuldades encontrara muitas, mas nenhuma delas pôde fazer frente à sua inabalável confiança em que algum dia poderia ser alguém importante e ocupar destacada posição na sociedade. Conseguira. Entretanto, para seu desgosto, não conseguira encontrar a mulher dos seus sonhos. Tal situação não deixava de incomodá-lo. Continuava solteiro, mas tinha fé que algum dia, mais cedo ou mais tarde, encontraria em algum lugar - fosse onde fosse - a sua alma gêmea. Ai seria a sua realização plena, absoluta!

_ Por acaso o senhor está indo pra cidade, também?

_ Tô - respondeu, decidido, aquele sertanejo.

_ Bem, se o senhor quiser eu posso lhe dar uma carona. Seria bom, pois eu gosto muito de conversar. O senhor me faria companhia.

_ Seno assim, eu aceito!

O homem entra no carro. Constrangido, pede desculpas por sujar o tapete com a lama abraçada às suas botinas. Não tem nenhum problema, diz Alfredo. Apresentam-se e começam a conversar. O homem dizia chamar-se Geraldo Silva. Possuia, segundo ele, um pedacinho de terra bem próximo dali, "bem junto daquele ipêzão amarelo ali, ó". De suas terras, raramente, saia. Muito raramente.

O carro desliza vagarosamente sobre a estrada enlameada. Alfredo desliga o som, para dar mais atenção ao seu companheiro de viagem. Acende um cigarro. Geraldo pede permissão - tem toda - para acompanhá-lo nesse prazer suicida. Apanha na capanga um pedaço de palha de milho seca e um pedaço de fumo. Corre a mão no cinto e apanha o canivete bem afiado. Alisa com ele a palha até que ela fique bem lisinha e limpa como se fosse folha de papel industrializado. Depois, ela é dobrada e passada, com as pontas para baixo, em volta do dedo médio da mão esquerda. Com os dedos polegar e indicador da mesma mão - já em concha - segura o fumo, que vai cortando caprichosamente. Os pequenos pedaços de fumo vão caindo um a um na sua mão. Quantidade certa de fumo cortada, guarda o canivete. Com os dedos da mão direita esfrega-os para separá-los. Enche a palha com eles. Vai apertando daqui e dali. Quase pronto. Antes, dá uma boa e caprichada lambida nas bordas da palha. De fora a fora. Depois amarra, bem firme, com uma tirinha de palha aquilo que dali a pouco se transformaria em um cigarro. Bate uma de suas pontas na unha do polegar esquerdo. Leva-o, finalmente, à boca. Tudo feito com muita calma, sem nenhuma pressa. Apanha a binga e, por fim, acende o manufaturado cigarro. Puxa a primeira fumaça com força, fazendo repuxar um pouco a pele do pescoço. A fumaça azulada e densa sobe, e os acostumados olhos de Geraldo ficam semicerrados para evitá-la. Prazer indescritivel. Cheiro? Inconfundivel: Capoeirinha. Purinho!

Enquanto, Geraldo preparava seu cigarro, Alfredo falava sobre saudade. Saudade de uma moça que havia conhecido há alguns meses.

_ Ingraçado, o sinhô falô em sodade. Sodade... trem mais difici da gente diliniá cum clareza, né mesmo?

Geraldo, passa a mão no queixo, em atitude meditativa. Alisa a barba rala e grisalha. Coça a cabeça sob o conservadissimo chapéu de boa marca: Panamá. Depois, ajeita-o. Olha a brasa do cigarro. Levanta as vistas e olha para o rosto de Alfredo.

_ Sodade, pra mim que sô quais anarfabeto - que num sei falá nessa sua linguage imbaraçada - só posso falá dela tirano comparação cum argum bicho. De bicho até que eu intendo razuave. Pois sim: sodade é tali e quar uma cobra!

_ Uma cobra? Que estranho! Mas, por quê, seu Geraldo?

_ Veja se o sinhô num há de concordá cumigo. Sodade é iguarzinha, iguarzinha as cobra. Essas uma ai nem andá de a pé, ela snum anda, não sinhô, mode que nosso Criadô dexô elas de eterno castigo purelas tê atiçado a bunita Eva a cumê o fruto proibido lá do Paraiso: a maçã. Inté agora num consigo intendê o mode que disso: logo a maçã que é uma fruta das de mió qualidade! Eu apricio dimais da conta essa fruta, só o sinhô veno. Mais mió mesmo é nóis dêxá esse assunto de banda e toca esse nosso, da sodade, pra frente, né mesmo? Por isso, antão, as cobra num anda! Só rastêja. A sodade também vem é rastejano, na mesminha tuada lerda das cobra. Bem divagarim. Vem relano a gente, bem manerinha. Inté dá de parecé um gato nesse particulá. Iguar a cobra, a sodade tá procurano um lugá bão pra se aninhá. Esse tar tem que sê bem quentim, bem aconchegantizim, mode que a sodade - sabida tar e quar as cobra - num gosta de friage de jeito manera! Num precisa sê um lugá de muito luxo, também não. Tem que sê um lugarzim bão, iguar esse que falei agorinha pra trais.

Geraldo, faz uma pequena pausa para dar mais uma tragada no Capoeirinha. Prossegue:

_ Cabe aqui um reparo. Nóis tamo falano é só de cobra venenosa, mode que, se fosse das outra, as mansinha, a cunversa tomava otro rumo. A peçonhenta só gosta de andá é de noite. Sabida que é, ispera o dia i drumi pra se alevantá. Quando tudo é um bréu só, ela tá pronta pra cumeçá o seu malfazejo trabaio. A sodade, também! Se o sinhô pois sentido, há de tê notado que inté agora nóis quais que só falamo de cobra, né mesmo? Mais a minha cunversa é assim mesmo: de tuada manera, discansada. A bão, o sinhô sabe antão qualé o lugá que a sodade iscoe pra pedi pôso pra gente? A bem da verdade, muitas das veiz a danada nem licença pede e já vai entrano portêra a dento! Eh, bichinha danada de tretera... de poca educação ela, a sodade...

_ Não sei que lugar é esse não, seu Geraldo - diz, Alfredo.

_ Se me permiti, vô dá uma de mão pro sinhô. Põe sintido: esse lugá num é um quarqué não! Tem que sê um lugarzim bem quentim, cumo já falei. Esse lugá, também é de vitar importança pra nóis tudim. Sem ele, nóis ia ficá parecido com os bicho.

_ Hum... já sei, o cérebro! - diz, exultante, Alfredo.

_ Quar nada, sô! Miolo até galinha tem, ara! - diz Geraldo com uma risadinha, no que foi acompanhado por Alfredo.

_ Bom, seu Geraldo, então que lugar é esse?

_ É o coração, sô! - diz Geraldo, eufórico.

_ Coração?!

_ É isso mesmo: coração! É bem lá dento, bem no méi dele que a sodade gosta de se hospedá. Ela fica lá bem inrudiadazinha. Quetinha, quetinha... Na maioria das veiz ela fica tirano um cuchilo. Quando ela dá de abri os ói, já é de noitinha. Mea assustada, ispriguiça, e os bração dela isbarra nas parede do coração, e ai ela se apresenta iguar uma picada de cobra. Até nesse particulá a sodade é iguar a cobra, tá veno? Bem divagarim a sodade vai picano o nosso coração de fora a fora e ele vai ficando cheim de veneno. Ai é aquela dor sem dilurimento, isquisita... Os veneno da sodade tem de tudo que é tipo e qualidade: sodade da mãe, do pai, dos irmão, daquelotros que já imbarcaro pro otro mundo. Essa dai é sodade das pió, mode que num tem cunserto, num tem vorta...

Nesse ponto, os olhos de Geraldo ficam brilhantes, cheios de lágrimas, que não deixa rolar rosto abaixo. Respira fundo. Prossegue:

_ Mais uma otra bem dilurida também, é a sodade do nosso bem-querê! Ai o trem é fei! Nossa Senhora Paricida! Oh! trem difici de pelejá é esse ai: sodade do nosso bem-querê!

Geraldo faz uma pausa, pensativo. Os olhos olhando para dentro do seu coração. Continua:

_ Sodade sinti muita, dotor Arfredo. Num vô minti. Sodade sinti muita foi da minha Isulina quando ela teve que se arretirá daqui pra acumpanhá a mãe dela que tava aduentada lá na capitar. Até ai, antão, eu só tava cubano ela. Jeitosinha, bunitinha que só veno! Toda hora meus ói dava de querê passiá nas curvinha do corpo dela. Quando ela usava um vistidim de chita todo florido, antão era um avexame de besta, macho. Ele bem finim rearçava mais ainda as forma bem feitinha dela... Quando dava de apriciá ela mais de perto fartava fica doidim da cabeça. Vê os óim dela me oiano, sua boca caladinha, desejosa da minha. Isso eu sentia, ara senão! Eita, trem mais bão, sô! Bão e bonito! Arguém, certa feita, me disse que "sodade é dô de amô!". Num há de vê que é isso mesmo, dotor Arfredo! Foi só dispois dela tê ido pra essa viage, que eu pude mió intendê esse ditado. Apois, se eu tava com uma baita sodade dela é mode que eu tava amano ela, num é certo? E nem sabia. O amô, esse que era pra mim bicho do mato, que num conhecia, se apresentô, dessa forma, assim, assim, atravéis da danada da sodade! Tentei achá jeito de midi esse amô: se era dos graúdo ou dos miúdo. Num cunsigui... Nium, eu penso, consegue, mode que ele - o amô - é iguarzim o ar: nóis num vê ele, só sente. Adimais, eu tenho pra mim que o amô num tem jeito de midi mode que ele é, também, iguar o cer, que é dum jeito só: infinito! Dotor Arfredo, eu acho que já tô amolano o sinhô cum essa minha falação. Se tivé, é só falá que eu paro jazim...

_ De jeito nenhum, seu Geraldo. Eu estou gostando muito da conversa do senhor. Pode continuar que eu estou prestando atenção - diz Alfredo, ansioso pela continuação daquela história. Realmente era verdade, pois até diminuiu ainda mais a velocidade do carro.

_ Seno assim, continuo. Vi a mixida da lua ingordano e imagreceno, apareceno e disapareceno, num sei quantas veiz, até que as duas, mãe e fia, vortaro. Ai meu coração, que andava muchim feito jenipapo, se encheu de aligria e virô uma melancia bem bitelona, bem firme e vermeia por dento: ducinha de amô. Amô pra minha Isulina, que num era minha ainda, mais que argum dia ia de sê, cum certeza. Da casca dessa melancia fiz armadura. Criei corage. Confesso, dotor Arfredo, tava fartano. Um tiquim de nada, mais tava! Graças ao meu São Judas Tadeu, ele acabô de interá essa corage fartante pra mim.

_ Antes de eu i lá no rancho do pai dela - véião sisudo, cara amarrada de respeito, poco falá e menos ainda de ri, como convém a um home, quando se trata desses assunto que tá cherano a flo de laranjera, ver e grinarda. Pra i lá preparei inté uma carta. Tudo bem pensado aqui dento da minha cabeça. Caneta na mão, me puis a tingi de preto a foia de paper branca. Só antão fui vê o quanto é difici falá desse assunto de sintimento. O trem já cumeçô a imbaraçá logo no iniço. Achei pur bem botá nome nesse meu arrazuado. Isso pra ele ficá assim mais paricido cum uma poesia ou sei lá o quê. Pensei e pensei. Cocei a cabeça, a nuca, os uvido. Alisei a barba. Até que pur fim atinei cum nome que me pareceu muito bãozim. Cumo era uma carta que eu tava mandano pra ela - pra minha Isulina - pus um nome assim: "Deu, procê". Esse nome me pareceu mais razuave mode que se essa carta caisse em mãos otras que não as dela, ninguém sabiria dizê quem era o autô, o "eu". Num assinei nada não! Essa carta pudia tê sido iscrita por quarque um que tivesse do mesmo jeito que eu: apaxonado. O mensagero é que ia dizê que era eu - Gerardo Sirva - que tinha iscrito pra ela. A carta tenho inté hoje. Pur um acaso tá até aqui dento da minha capanga.

Geraldo mergulha a sua mão na capanga e fisca uma folha bem amarelada. Diz, exultante:

_ Num falei! Aqui tá ela: amarilinha, amarilinha, mais tá cum as letra tudinho ai, do jeito que ela chegô nas mãozinha do meu bem-querê a mais de quarenta ano. Nem perguntei, se o sinhô qué ovi...

_ Mas é claro, seu Geraldo. Faça o favor! - responde, Alfredo, mais ansioso do que nunca.

_ Pois antão, põe sintido - diz Geraldo, tomando fôlego e procurando impostar a voz como se fosse locutor de rádio:


"D'EU, PR'OCÊ"

"Hoje abri os ói bem tardizão: os pontrro do relogi bem isticado - bem retim - feito corda de violão. O ponterão - o ligero - apontano pro céu, e o ponterim - o lerdo - apontano cá pra terra: seis em ponto! Cumo faço todo dia, cunversei primero cum meu amigo e santo de fé: meu São Judas Tadeu. Dispois de encerrada essa boa prosa matinar, meus pensamento galopô disimbestado pro seu rumo. Nessa horinha ixata, gostaria de sê pueta, mais pueta num sô. Só quisera sê. Pueta não desses um quarque não! Mais quiria sê pueta dos bão, cum muito traquejo na pena e no paper mode podê compará sua bunita pessoinha a essas tanta coisa que esses um tão bem sabe falá. Compará ocê ao má, que num cunheço, mais que argum dia vô a ele me apresentá. Mais, cumo Deus num dexa nada fartar, deu pra todos nóis otras beleza, que tais, pra admirá: o cér, as nuve, as istrela, o sor, as cachuera, cum seu bunito cantá. Mais todas essas beleza os home de hoje num sabe apriciá. Só pocos, muito pocos. Mais eu seno um caipira minero a elas sube me apegá. Antão em seno assim, quero a todas elas lhe compará. Me discurpe si num gostá. Cumo já falei: num sô pueta, mais sô sentimentar.

Ocê, pra mim é um cér: infinito. Infinito no seu muito gostá. A sua pele maciinha e branca é as nuve. Purinha! Seus ói briante só às istrela posso mió compará. Eles alumiô e transformô o que até antão era um istradão iscuro e fêi, numa avinida bem luminosa e de beleza sem iguar. Seu coração é o sor, que quando isbarrô no meu coração - que tava bem geladim feito preda d'água -, se derreteu todim mode ocê. Derreteno essa coraça gelada apareceu uma otra coisa: um coraçãozão bem incarnado e quente aparentado cum brasa que nem eu própri sabia de existi. Foi ocê que me ajudô a discubri ele e pur isso tudo devo de lhe agradecê. As cachuera, imbora seno de água doce e cristalina, são suas lágrima que pur mim, jamais há de derramá. Pra isso vô me isforçá! Lágrima sua só posso de aceitá na horinha ixata que nóis fô amá. Ai sim, é bão. Lágrima sincera, verdadera, conforme o meu gostá. Lágrima só-somente de amô, nunca- nunquinha de dô.

Apois, minha prefumosa Isulina, ocê vai sê minha mió amiga, cum quem vô gostá tanto de cunversá. Cunversá sem pará inté os pontero do relogi, de tanto rodá, tuntiá e dêxá a nossa prosa cuntinuá até nóis cansá. Ocê vai sê minha minina, que eu vô gostá de zelá cum todo carim, cuidano pra num te maguá. Ocê vai sê minha cumpanhera que vai tá sempre ao meu lado a me orientá. Ocê vai sê minha amante que eu vô gostá tanto de acarinhá. Ocê, pur urtimo e finarmente, vai sê a muié que eu tanto vô amá. Amá pra sempre!"

_ Seu Geraldo, mas essa carta ficou muito bonita. Bonita, mesmo! A sua Isolina o que ela achou? Ela respondeu?

_ Brigado, dotor Arfredo. Mais vamo divagá. Tenha carma e paciença. Eu, nessas arturas, atinei que divia ficá só por ai mesmo. Num quis me alongá mais não, mode pudia sê que acabasse iscreveno arguma coisa que ela num gostasse. Eu botá o carro na frente dos boi? Isso nunca! Pudia de tê dispidido c'um abraço ô inté cum bejo. Mais ricui esses pensamento ligerim, ligerim, mode que pudia dá a intendê pra ela que eu tava era cunvidano ela pra barganhá uns arroxo. Ela, muito decente e coisa e tar, certamente, que num ia gostá de forma arguma dessa liviana proposta. A época de barganhá esses arrôxo ia chegá. Disso eu tinha certeza! Era só ter carma e paciença. Isso eu tenho. Muita, graças a Deus!

_ Intão, li essa carta uma veiz. Li de novo. Li outra veiz. Li num sei quantas veiz pra vê se tinha cunsiguido passá pro paper o que tava dento do meu coração. Achei, que sim. Essa carta era a minha cara, mode que iscrevo do jeito que falo. Otra preocupação que deu pra isquentá a minha cabeça foi as dura regra gramaticar! Vai vê que essa minha carta tava cheinha de erro de portugueis. Erro de variados tamãim e de diversas gravidade, pois, cumo já disse, iscrevo do jeitim que falo, tar e quar! Seno essa carta mais ô meno anônima, num pudia nem pidi ajuda ao meu istimado professô Primarino, pudia. Pensei cá cumigo: num faiz mal. Os erro, eles tudim junto num daria de tirá o sintido do meu apaxonado ixpressá. Gostei muito de umas rimazinha que prantei lá pelo mei da carta: cantá cum apriciá, compará cum apegá, acarinhá cum amá e tantas otras. Tão intusiasmado fiquei cum isso que andei co'a cabeça na lua e os pensamento nas istrela a vê se cunsiguia versejá mais. Andei fazeno mais uns treis ô quatro versim. Num gostei. Achei sem graça, insonso. Disacurçuei, di vera! Incerrei purai esse oficio de pueta. Se Deus num me deu esse dom de iscrevê puesia, eu é que num vô atrais disso de jeito Nium! Mió mesmo é dêxá queto pra lá!

Já com outro cigarro de palha nos lábios, Geraldo continua a sua história para Alfredo, seu absorto ouvinte:

_ Otra preocupação minha, dotor Arfredo, foi pra arrumá um mensagero. Pensei em mais duma dúzia deles. Mais fartava cunfiança. Eles tudim muito linguarudo e amigos da alambicada. Era só enchê a cara dessa perversa e ai pronto: o mundo intero ficava sabeno dessa minha secreta arrumação! Acabei dano cum pensamento no meu amigo Totõim. Impussive esse um dá co'a lingua nos dente: ele é mudo. Mudo e surdo. Pra miorá mais ainda essa situação pra minha banda, a linguage dele - de cumpricados sinale - pocas pessoa intende. Eu sô um desses poco. Acertei tudim cum ele. Totõim se riu - risim de mudo - muito dessa minha paxão. Prometeu e agarantiu segredo, que era assim representado: bejos nos dois dedo fura-bolo. Bejava um, depois bejava o otro. Eles cruzado inriba da boca! Segredo mais aparentado cum juramento. Esse meu iscrito ia cum ele pra dibaxo da terra, assim me agarantiu Totõim. Seno assim fiquei discansado e aguardano resposta ô quarque coisinha, um sinarzim que fosse da minha Isulina.

_ Veja só o sinhô, dotor Arfredo. Cumo se tudo isso num bastasse, fiz inté umas incenação, feito tiatro - bem iscundido, lá nuns grotão bem apartado de tudo e de todos - imaginano quando chegasse a hora d'eu i fazê a visita pro povo dela. Uma visita cum cara de pidido. Pidi a mão da Isulina pra namoro, primeiro. Dispois, pra noivado. E finarmente, pra casório. Tratei de arrumá e trená umas fala de maior ricurso: tudo muito bem acentuado, nos ponto, nas virgula, nos travessão e nos ponto finar. Fazia de conta que as arve era o seu Herculano. Esse é o nome do pai da Isulina. Uma hora era um jacarandá, otra um ipê, uma aruera, uma peroba, um cedro. No finar das conta, esses uns tudim já inté me cunheciam de tanto eu trená cum eles. Eles divia de pensá lá cum suas foia: "Lá invém o doido, coitado!". De nada, nadinha tudo isso - o tiatro, a falação mais aprumada - me adiantô, pois vô morrê do jeito que nasci: muito avexado e poco faladô quando se trata desse assunto sériozão. Adimais, a minha cabeça num dá de decorá nada! Tudo isso eu tinha de enfrentá sozim, pois ninguém sabia de nada não! Nem minha mãe!

_ Tá doido! Mas que situação mais complicada essa sua, seu Geraldo! Nossa Senhora!

_ Pois num é, dotor Arfredo! Passei maus bucado cum essa minha peleja. Pois bem, a resposta de Isulina vei, mais custô! Custô pra mim bem umas cinco noite cum os ói istatalado, oiano sem oiá, sem nada vê. Só pensano no que havera de tê acunticido pra mutivá tamanha demora na resposta: se ela aceitava ô não a minha proposta de namoro. Preocupação muita. Deu inté de branquiá um mundaréu de fio dos meus cabelo. Ela, a preocupação - perversa de nascença - pintô, também, de carvão imbaxo dos meus ói. Do fugão, eu quiria distança: muitos passo. Mãe deu de me pagiá cum mais disvelo. Disvelo iguar quando a gente ainda usa carça curta ou nada mesmo. Ela veno eu assim, assim, arridio, mei que aluado. Preocupada ficô, coitada! Ela num sabia direito o que tava aconteceno. Só discunfiava. Discunfiô, certim! Só pudia sê amô! E era mesmo. Danada, a minha mãe.

_ A tar resposta vei atravéis de mensagera da cunfiança da Isulina. Resposta que me pegô catirano as ferradura de meu amigo-cavalo, o Alazão. Resposta curtinha e seca, cumo a própria mensagera dela. Assim vei ixpressa: que ela, Isulina, tinha muito apreço pela minha pessoa e que, quereno, pudia tocá minhas pretensão de namoro pra frente, que da parte dela incontrava acuida. A alegria foi tanta que sai feito doido pasto a fora. Minha mãe só me oiano. Dispuis contei tudim pra ela. E mode que não havera de ser assim? Ela é minha mió amiga, ara se não!

_ Me alembro bem daquele dia. Dia de i lá no rancho do seu Herculano, pai da Isulina. Tomei um bãi bem demorado, mais de hora. Sabão de pelota gastei um intero. Bucha de chuchu mais um poco, mode que nóis que luta na terra adquirimo, com o passá do tempo, a cô e o chero dela. Passei banha de porco no cabelo. Protegeno ele, o bunito chapelão Panamá, que largô sua redonda casa e foi direto pro topo da minha cabeça e tá aqui até hoje. Conservadão, que só, né mesmo? Vesti minha ropa dominguera. Todinha ela bem na goma. Capricho medonho de minha mãe, que passô a fazê muito gosto nesse enlace, mode que ela veno toda essa minha alegriazona se alegrava também. Mãe, se preocupava me veno assim, sem ninguém pra agasaiá dento dos peito. Além do mais, eu já tava caminhano firme pros trinta e nada de namorá. Namorá, nem nada. Nada, mesmo! Carcei minha butina nova. Novinha, novinha. Ela num tinha cantado nem uma única veiz. Mas quando dei cum ela os primeiro passo, foi aquela belezura. Essa canturia dela dava de ouvi longe, sempre sob a regênça do meu ligero caminhá. Tudo pronto, arriei meu cavalo, de batismo, Alazão, cumo já falei. Arriei ele com minha mió cela, que num era de prata, não sinhô. Quem sou eu - mas os ferro dela briano, refretino bem refretido os raio do sor, que era uma beleza. Pidi bença à minha mãe e por ela fui mais abençuado do que o habituar, mode que ia precisá de um adjutoriozim a mais nessa minha sentimentar impreitada.

_ Botei macha de regalo no Alazão mode dá mais tempo de i me aconseiano cum vento o que ia falá pro seu Herculano. Quanto mais chegava perto do rancho dele mais meu coração disatinava a batê todo atrapaiado: uma pancadona forte, otra bem fraquinha. Tinha hora que nem sinti o danado sintia. Parecia inté que ia morrê. "Logo eu que num tenho medo de assombração, de mula-sem-cabeça, de muié de sete metro, cum essa bobage!" pensava eu. Medo só tenho - um poquim só, quando em veiz - de morto e de gente viva. Medim à-tôa que num dá de me alarma muito não! Num acredito em vivente de todo, todim disasombrado não, viu dotor Arfredo! Afinar de conta, o medo também acaba, em certas ocasião, se tornano até nosso amigo, nos protegeno de pirigo mais agraduado, né mesmo?

_ Pois bem, já cum a noite quais ingulino a tarde cheguei no corchete do rancho do seu Herculano. Dadonde tava quem eu cunsigui divisá? Ela! A Isulina, o meu bem-querê. Quando a gente tá nessa arrumação de apaxonado as vista da gente parece que até mióra. O coração parece que vira lente de armento pra banda de quem a gente gosta. Ela - a Isulina - toda arrumadinha. Parecia até que meu coração tinha mandado recado pra ela, que eu ia lá na casa do pai dela naquela quais noite. Essas coisa que acontece, nóis num sabe, ao certo, ixplicá. Ela me avistô também com as lente do coração dela. Isulina tratô de i lá pra dento da casa e chamô o pai dela, seu Herculano. Esse um se apresentô na solera da casa. As mãos socada nos borsão da carça de argudão que tinha lá umas listrinha poca de fora a fora. Os ói dele mirano a minha pessoa. Nessas arturas, virei pessoinha: fiquei miudim, miudim, do tamãim dum anão. Acabei de chegá. Apiei do Alazão cum poco de dificurdade. As perna num tava quereno me obedecê: tremeno, tremeno. Disfarcei. Num sei se cunsigui. Fui logo tirano o chaper em sinal de respeito e consideração. Isso, toda vida tive, principarmente, pelos mais véi. Cumprimentei seu Herculano, e a nossa cunversa foi mais ô meno assim:

_ "Boas, seu Herculano!

_ Boas, seu Gerardo! Que nuvidades são essa? Sua pessoa, por aqui no meu rancho?"

_ Ele respondeu, mei que inquirino. Discunfiadão. De imediato, quais perdi o fôlego. Cum ele só tinha me encontrado pocas veiz. Ele chegô a cunhecê meu finado pai. Cunhicia, também, minha mãe e mais arguns do meu povo. Mais, eu própri, num cunhicia direito não! Esse era o motivo maió dessa discunfiaça dele. Armentô muito foi por causa disso. Isso que antes era só uma cismazinha, agora, passado tantos ano, virô certeza bem agarantida. O meu coração, coitado, pulano disguvernado dento do meu peito. Eu tentano acarmá ele. Mais como? Se nesses assuntos ele - o coração - é que é o rei e nóis todos somo seus vassalo?

_ Dicidido, seu Herculano, me cunvidô, cum voiz paricida cum orde de quarté:

_ "Vamo passá pra dento, seu Gerardo.

_ Pois, sim - respondi bem baxim. Acho que ele nem ouvi, ouviu."

_ Entremo casa a dento. Eu na frente. Nas lingua trasera da minha butina, o seu Herculano. A mininada esparramada por tudo que era canto mode mió podê me ispioná. Só se ôvia os cuchicho deles mode a minha presença lá! Tudo se ajeitô quando seu Herculano acabô de chegá na sala. Silêncio de morte. Tive a impressão que inté as mosca - teimosa pur natureza - tinha respeito pur ele. Num ficô nenhuma. Fugiram tudinha sem dexar nem lembrança do seu imitá os avião. Apois, dotor Arfredo, sentamo cada quar numa caderona de peroba bem pesadona. Ele bem distacado lá na cabicera da mesa. Eu cá, bem miudim, quais nos pé dela. Agunia. Agunia que armentô quando ele apoiô os bração forte dele inriba da mesa. Cruzô as mão e cumeçô a rodá os dois dedão polegá. Uma hora pra frente, otra hora pra trais. Cada rodada daqueles dedão mais armentava a minha agunia, que já era do tamãim de um trem. Num sabia se oiava pros dedo ou pros ói dele, que me oiava firme, quais me furano. Antão, cumo era visita, achei pur bem intabulá quarque assunto pra vê se eu ficava mais carmo! Pelo menos mais arrelaxado. Lá fui eu, arriscano um cumeço de prosa:

_ "Apois, seu Herculano, tive nutiça que o sinhô é pescadô dos bão!"

_ Eu disse isso ai, dotor Arfredo, mintino pela razão já dita: cumeçá uma prosa. Tinha nutiça disso nada, não! A única nutiça que eu tinha, pur sê verdadera, era que o seu Herculano era muito brabo. Na juventude tinha feito o diabo. Nunca levô disaforo pra casa de jeito e de tamãim Nium! Assim diz os mais véi dessas bandas de cá. A respostona dele num tardô nium tiquim. Vei ligera que só um raio:

_ O sinhô, seu Gerardo, deve de tá é muito malinformado. Nunca andei cum essa mixida de pescaria não! Eu detesto! Esses pescadô são tudo gente ordinária...eles num vale niuma prata de réis furada!

_ Fiquei disacorçoadim de tudo, só veno! Cumo essa resposta me pegô de todo disprivinido, as vista dero de querê apagá, inguli um restim de cuspe que ainda tinha na boca güela abaxo. Devo de tê ficado bem amarilim! Mais insisti e persisti notra prosa mais ô meno iguar:

_ "Mais uma caçadinha, seu Herculano, que tar?

_ Detesto mais ainda!"

_ Foi a resposta curtinha e dura dele! Ai foi que eu vi que a cunversa tinha azedado pra valê. Minguo meu assunto e minha corage foi junto! Apelei pur tudo que foi santo pra me ajudá naquela hora de minha maió afrição. Bati parma nas porta das casa deles tudim. Foi ai, antão, que ouvi uma voizinha no meu pé duvido: "Fale sobre passarim, que ele gosta e entende muito!". De quem era essa voiz eu num sei ao certo, mas adiscunfio que ela era do meu grande amigo, o poderoso São Judas Tadeu! Distronquei, sem pestanejá, a cunversa pra esse rumo. Ai o home mudô inté as feição: de emburrado aluno passô a bem falante professô. "Muitobrigado, meu São Judas Tadeu! Mais óia, num dexa eu tocá num assunto que o seu Herculano num goste, sinão eu tô no sar!" - era só o que os meu miolo num cansava de falá pra esse meu santo de minha devoção e de minha istima.

_ Seu Herculano só falano, e eu mais atento que aluno cum medo de carçá as luva de madera: a parmatória. Mais, de veiz em quando, fazia lá um apartizim, bem levizim pra num dêxá o assunto iscapuli e eu num tê otro pra puxá. Ou pió ainda: puxá um assunto que num agradasse o seu Herculano, iguar esses de caçada e pescaria. Esse assunto novo ai, dos passarim, tava de muito bom tamãim, apesá deu intendê bem poco, quais nada mesmo. Ele, todo intusiasmado com os passarim. Inté me ofereceu uma cachacinha, que eu - veiaco - recusei de prano! Cachaça boa, afamada, de seu alambique particulá, o mió da redondeza, apreguava ele. Pela sua carona - satisfeitão -, ele apriciô, esse meu procedê. As veiz pudia de sê inté cilada dele pra vê se eu tinha arguma discaida pro rumo da branquinha e que quisesse morá cum ela em sua casa - lá no alambicão todo de cobre - como seu eterno hospe, cumo tantos otro coitado que tem por ai. "Brigado, de novo, meu São Judas Tadeu!" - os meu miôlo falano pro meu santo todo minuto, todo segundo. Coitado do meu santo! Às veiz, ele pode de tê até ficado aburricido com essa mixida, cum essa ladainha de tanto agradicimento. Às veiz, também não. "Muito pidi e poco agradece" é o que mais acontece nesses assunto divino. Recusada a cachaça, aceitei café. Tomei inté mais que divia, pra agradá a dona da casa, sinhá Emerenciana. Cumi bem uns deiz pão de quejo, pelo mesmo mutivo. A cunversa só avolumano: o que antes num passava de um reguim à-toa, tomano corpo, pareceno até o riozão Amazona! Eu só achano bão dimais da conta e fortaleceno meu isprito de cunfiança. Cheguei inté - veja o sinhô, dotor Arfredo - de tirá lá umas brincaderinha cum seu Herculano. Poquinha, mais muito respeitosa e elogiosa pra banda dele. Claro que eu num sô besta! Os peitão dele inchô feito balão de festa junina. Pura satisfação. Todo mundo - nesse mundão - gosta de sê elogiado, ara si não, né mesmo? A cunversa ia fruindo do mesmo jeito que ia fruindo a alambicada pro grobo do seu Herculano. Umas bem contada trêis ô quatro. Quando apercebi que ele já tava mais afroxado no seu rigorosismo paternar, fui rudiano, rudiano a cunversa, até chegá aonde quiria: pidi a permissão dele mode tocá namoro cum a minha amada, a fia primera dele, a minha tão adorada Isulina. Garganta bem limpinha, lavada, incerada, bem lustrosa, falei:

_ "Pois é, seu Herculano! O rear mutivo dessa minha visita é que eu quiria pidi a permissão do sinhô mode tocá namoro cum a sua fia..."

_ Só cum essa frase arriei chão abaxo o peso de um carro-de-boi cheim de quarque coisa. Meu coração pulano feito mii na sua mágica transformação pra dispois virá pipoca. Ôei pro rumo da porta, que tava bem abertona me convidano pra sai: pur bem - a cunvite - ou pur mar - na base do pescoção! Alazão lá de prontidão: sô pono sintido na cunversa de nóis dois home. Cumo ele é meu amigo de certo que tava torceno muito pur mim.

A resposta vortou com otra pirgunta:

_ "A quar delas, seu Gerardo?

_ A mais véia... a Isulina!" - disimbuchei numa só tuada. Mais sempre com os meus ói passeano num vaivém sem fim: ora na carona dele, ora na porta, ora no meu Alazão.

_ Seu Herculano se levantô e istralô, cum as duas mão abertona, um tapa inriba da mesa que pur poco num quebrava era tudo. Eu fui quais mais ligero do que pensamento. Já tava com as butina na porta, doido pra podê ajeitá elas nos estribo da sela do Alazão, quando ovi ele dizê:

_ "Aliluia! Brigado, meu Santo Antõim!"

_ Só sei dizê que fui num otro mundo quarqué e vortei. Vortei pra esse praneta: pra mesminha mesa e pro mesmim lugá que tava antes acomodado. Todo sero, comportado, como se num tivesse tentado fugi de medo do seu Herculano e de sua reconhecida brabeza. Passada essa malintendida tempestade, tudo serenô. Tudo carmim, carmim feito lagoa quando num tá em época de ventania, que fica iguarzim ispei.

_ O mutivo dessa alegria toda do seu Herculano, ele me revelô assim:

_ "Pois é, seu Gerardo! Pensei, inté que a minha fia Isulina ia ficá na pratilêra. Já tava ficano erada, quais na casa dos vinte..."

_ Dai pra frente foi aquele disfiá de elogio dele pra Isulina: trabaiadera iguar num tinha. Sabia fazê de um tudo, eticeta e tar. Mais eu num quiria sabê de nada disso. Queria mesmo era ela pertim de mim mode nóis cunversá, eu acarinhá ela e ela me acarinhá. Sei dizé que as grade que segura os meus peito quais rebenta mode segurá meu coração. Ele era só aligria. Aligria purinha, purinha. Bunita tar quar aligria de minino que vai assisti ispetaco de circo pela primera veiz!

_ Terminada toda essa elugiação - bem miricida, pur sinar -, seu Herculano assim falô pra sinhá Emerenciana:

_ "Muié, traiz a Isulina pra cá mode cunhecê seu pretendente pra namoro, o seu Gerardo!"

_ Dai a poco, dotor Arfredo, vei ela rebocada pela sinhá Emerenciana. A coitadinha, avexadinha, avexadinha. Quêxo pregado no covir dos peito. Os óim dela quereno e num quereno me dirigi sua luiz. As mãozinha dela toda incrunvinhadazinha inriba da barriga. Tudo que há de mais belo nesse mundão gigantesco - istrela, cer, mar, sor, o acordá e o dormi dele - bem arreunido naquele corpim da minha Isulina! Dai pra frente eu num sei nem nuticiá direito... Acho que foi tanta aligria que os meus miolo entraro tudim em disorde: dançano uma boa fulia. Num me alembro de nada, nadinha... Só da minha muita aligria. Quanta!

_ Todavia, me alembro muito bem, que quando ia me arretirano daquela casa, seu Herculano me chamô pruma cunversa reservada: tarveiz de futuro sogro pra futuro genro. Antigamente, num tinha essa namoração disavergonhada de hoje não, dotor Arfredo. As muié num ficava catirano de namorado toda hora não! Ixprimentano os beiço dum, ixprimentano os beiço dotro. Num tinha isso de jeito nium. Essas uma ai logo, logo levava nome de muié alegre, pecadora da pió ispéci. O certo, o correto acuntecê era namorá, noivá e casá logo cum primero namorado! Num sei dizê se isso é bão ou rúim... Tudo sem muita demora, sem muita lenga-lenga e essas discurpa de gente que num qué nada de compromisso: "vamo isperá as coisas miorá, eticeta e tar.". Era no mais tardá trêis, quatro meis, já tava os dois subino as iscada da igreja. Mais isso, hoje em dia, num ixiste mais não. Acho que cumpricou muito mode que o povo de hoje só qué namorá, namorá e nada de casá!

_ Mais cumo eu ia dizeno sobre a cunversa reservada cum seu Herculano. Ela foi tida e havida longe das vista de todo mundo: da muié dele, dos fio e das fia, também. Advertença sera, de fazê tremê quarquer vivente. Eu trimi muito, confesso! Advertença que me foi dirigida, mais ô meno, nesses termo:

_ "Apois, seu Gerardo! Tô permitino o namoro do sinhô com a minha fia Isulina. Ela é moça decente, de respeito, trabaiadera, cumo já falei. Criada nas regra do bom procedê. O sinhô, pelo poco que sei de sua pessoa, é home decente também, trabaiadô, de famia boa, de respeito, eticeta e tar. Quero dexá, pur via das dúvida, só uma recumendação: nem pense em judiá de Isulina, sinão eu mesmo vô enchê o sinhô de chumbo, tá ouvino? Tome muita precarção cum esse meu consei..."

_ Nesse ponto, seu Herculano mais se assemeiava à inxofrenta criatura: os ói dele ficaro vermei, vermei, cheim de sangue. A cara virô pedra pura. As sobranceia dele deram as mão. Cumo se isso num bastasse, ele alevantô um poco a camisa da banda esquerda da barriga e me mostrô - bem aninhado lá - o parabelão que já tinha feito muito buraco no côro daqueles uns que acharo que pudia mais que ele! Ai foi que me tremi todim. Percebeno esse meu estado, seu Herculano, passô o bração isquerdo dele no meu costado: me abraçô. Um mei abraço. Pois, num é? Saiu me arrastano, jeitoso, até o Alazão. Mais essa advertença ficô bem apregada no meu coração iguar o Nosso Sinhô na cruiz. Pra toda vida, sigui ela bem a risca pra evitá quarque estrago nos meus côro! Ela nasceu advertença e morreu advertença, pois inté discuti cum a Isulina, nunca discuti. Nunquinha! Nóis dois cumbinamo bem a vida intera. Ela adivinhava inté meus pensamento, os meus desejo, os meus gosto. Tudim, tudim, e eu adivinhava os dela também! Introsamo, di vera!

_ Tocamo namoro mais uns pocos meis. Dispois, noivamo. Tudo facim, pois me agradei de todos da famia dela: do seu Herculano, da sinhá Emerenciana, dos irmão e das irmã dela. E eles se afeiçoaro à minha pessoa, também. Graças a Deus! Cunversava cum o chefe daquela famia horas e horas. Desse meu procedê, Isulina reclamô. Deu inté de inciumá. Veja só o sinhô! Dei razão pra ela. Riduzi um pouco a cunversa com o futuro sogro e discambei pra banda dela, que era inté muito mió, sem dúvida. Eu só sei que dai mais umas trêis lua, eu e Isulina, finarmente, nos casamo. Aliançamo os nosso coração, cum tudo que tinha dento, perante a Santa Igreja Católica. Perante ela e todo mundo daqui. Muita gente - os amigo, os parente e os familiá das duas banda - foi vê nosso casório. Fiquei satisfeitão de tá casano cum a muié que mais amava nesse mundo! Ela, também, agradava muito da minha pessoa e me amava di vera!

Do alto da serra, ambos avistaram a pequena cidade. Mais alguns minutos e estava terminada aquela boa conversa.

_ Ara, dotor Arfredo! Já tamo chegano, né mesmo?

_ É, seu Geraldo. Chegamos rápido, infelizmente. Isso, porque o senhor tem uma prosa muito boa ...

_ Quar nada! Isso é bondade do sinhô, que é home de fina educação e que num qué ofendê esse véio aqui!

_ Nada disso! Como o senhor mesmo diz, o que eu falei é "verdade-verdadera"!

Ambos riem. Seu Geraldo, após muita insistência do Dr. Alfredo, diz o lugar onde queria ficar. O que antes era "Num se preocupe cum isso. Quarque lugá tá bão, sô!" encontra seu paradeiro: na igreja. Igreja São Judas Tadeu. Despedem-se, calorosamente. O advogado, convidado para numa próxima vez, ir tomar um cafézinho na chácara do Seu Geraldo. Tudo acertado na base da promessa. E promessa é divida, conforme asseverou esse último. Cada qual seguiu seu rumo.

O sertanejo sobe a pequena escadaria da Igreja. Vazia. Silêncio absoluto. Logo à entrada retira o chapéu com a mão esquerda e o apóia contra o peito. Persigna-se. Bem destacado no altar a enorme e bela imagem do seu santo e amigo, São Judas Tadeu. Aproxima-se dela e com o santo tem a seguinte conversa:

_ "Meu inestimave amigo de tantos ano, São Judas Tadeu! Tô alegrão de tá podeno visitá o sinhô na sua sagrada casa. É sempre muito bão podê, de veiz em quando, visitá os amigo, né mesmo, sô? Pois é, meu santo, o sinhô viu o cumpanhero que me troxe até aqui? Sujeito bão dimais da conta, o dotor Arfredo! Tenho pra mim que ele tá apaxonado. Logo no iniço da nossa cunversa ele vei com aquela história de que tá cum sodade de uma moça lá das banda dele e coisa e tar... Ele tá é iguarzim um otro que o sinhô cunhece muito bem, né!"

Geraldo ri baixinho dessa recordação. Continua:

_"Pois é, meu São Judas Tadeu, eu também tô cuma sodade danada. Uma sodade muito diferente daquela sufrida por mim há uns 40 anos. Aquela, cumo o sinhô sabe, teve reparo, teve cunserto. Essa otra que tá aqui dento do meu peito, essa já num tem! É sodade muito mais dilurida do que dô de dente, mar comparano. Essa dô é tanta que dei inté de ficá revortado cum o nosso Divino Criadô! Achei que ele num pudia de tê feito isso cumigo: apartá a Isulina de mim e levá ela pra junto Dele! Fiquei, divera, inraivado, revortadim de tudo. Num há de vê que inté ciúme sinti? Ele disfrutano da compania muito ispiciar da minha Isulina e eu aqui sózim, sózim, amargano essa triste dô que é a dô da separação pra todo o sempre!

_ Cum tudo isso me revortei e Dele também tive muita raiva, num vô minti! Cumparei Ele a um desses home que tem esses buneco chamado marionete, que faiz de um tudo. Ele, forgadão, lá de cima cum as cordinha - que é a nossa vida - nas Suas poderosa mão e nóis cá imbaxo cumprino o que ele manda nóis fazê. Ele pur certo dizia lá pros santo mais próximo dele, só tirano brincadera. Só cum os otro santo, mode que ele sabe de nossa sincera amizade. Ai Ele divia de ficá avexado, sem graça de fazê essas brincadera com o sinhô pur perto. Mais imagino que a brincadera divia de sê mais ô menos assim: "'Qué vê, meus amigo? Eu agora vô fazê o Gerardo pulá." Eu cá imbaxo, sem de nada sabê, pulava. "Agora ele vai pitá!". E eu, pitava. Tudo inquanto era orde imanada Dele, todos nóis cumprimo, sem pestanejá, sem sabê dadonde elas tão vino ao certo. Tudo em segredo bem secreto. Segredo que já num é nem segredo mais, é mistéro. Mistéro que num passa de um segredo mais agraduado.

_ Pensano bem, toda essa nossa vida é um verdadero mistéro, pois num sabemo, de forma arguma, o que vai acuntecê nem daqui a um sicundo siqué! Tudo iscuro e nebuloso iguar uma tempestade. Só Ele, poderosão sabe! Sabe tudo! Mais parece que Ele num sabe é o tamãim do meu sufrimento que ele tá me fazeno passá. Ou será que sabe e se adiverte cum tudo isso? Será pussive, meu São Judas Tadeu?

_ Pois sim, no fugaréu dessa minha revorta inté duvidei da divina ixistênça Dele. Disatinei a pensá iguarzim os ateu! Cá cumigo fiquei pensano quar seria a nossa recompensa pur triá os cumpricado caminho do Bem - que são danado de istreitim feito pingüela -, de sigui as norma da Santa Igreja, de cumpri tudo inquanto é promessa - as mais diversa e variada -, de muito rezá, de muito fazê pelos mais necessitado do que nóis mesmo. A paga que Ele nos dá por tudo isso é a morte. Morte que nóis todo já presenciamo nas pessoa quirida que já imbarcaro prum otro mundo, que nóis num sabemo qualé e nem adonde fica. Nium que já foi de viage permanente pra esse mundo vortô pra nuticiá para nóis, que estamos inriba da terra, cumo é que é esse um ai! Se presta ou se num presta. Se é bão ou se é rúim! Nium, Nium mesmo nunca vortô. Disso nunca tive nutiça! Meus pensamento ferveno cada veiz mais no óleo pirigoso e quente da raiva e da revorta.

_ Pois assim foi, meu São Judas Tadeu. Mais dispois, mais carmo, cum a cabeça mais fresca, atinei pra uma coisa que me aliviô bem. Me confortô, somente, mode que a dô que eu ainda sinto cum a perda da minha Isulina é muito grande! Me pirguntei qualé o pai que qué o mal dos fi. Eu mesmo rispondi: Nium. Nium dos bão, mode que de pai e mãe rúim iguar jararaca o mundo tá chêi. Só tô falano dos bão. E fui, fui siguino esse meu pensamento inté ele cansá. Quando ele parô, bem cansadão, lingua pra fora palmo e mei, foi que eu pude vê cum mais clareza que Deus, seno nosso Pai - dos bão, da mió ispéci - num quiria de forma arguma judiá de mim e muito menos da minha adorada Isulina. Intendi também que esses assunto que falei pro sinhô num tem sulução. Pur isso é que nóis chamamo esses um ai de mistéro. Eles foge do nosso intendimento. Intendimento de nóis tudim, seja de um quais anarfabeto igualeu ou de um daqueles que vive cum a cara socada nos microscope bisbiotano a vida daqueles bicho bem miúdim que vive por tudo que é canto, que cabe em quarque lugá. O mió que eu tinha a fazê era larga mão de tentá intendê esses mistéro que involve a vida de todos nóis. Me pinitenciei, pidi perdão a Deus que, seno bom pai, como de fato é, pur certo já me perduô, bem perduado. Me arrependi bem arrependido de todas essas bobage que andei pensano, mode que, sem esse arrependimento, isso tudo num passava de farsidade, e farso num sô e nunca fui!

_ Acho, meu São Judas Tadeu, que já amolei o sinhô dimais cum esse meu sintido disabafo, cum essa lamúria quais sem fim. Sempre quando cunverso com o sinhô, fico levizim iguar o vento. É assim que me sinto agora!

_ Cumo o sinhô sabe, sô mais de agradecê do que de pidi. Mais dessa feita, tenho um pidido bem serozão pra lhe fazê... Eu quiria, de todo meu coração, que o sinhô me atendesse, imbora seno esse pidido dos mais istranho que já fiz em toda minha vida. É o siguinte: eu quiria que o sinhô providenciasse junto ao Pai uma passage pra eu podê encontrá a minha Isulina. Pro sinhô que é secretaro particulá Dele, isso vai sê facim, facim de cunsigui, né mesmo, sô? Pro sinhô até o que é impussive se torna pussive, num é verdade? É pur essas e pur otras que o sinhô tem um tituluzão bem agraduado, bunito até: 'São Judas Tadeu, o santo das causa impussive'. Tá veno só! Já tô até de mala e cuia pronta pra viage mode podê mincontrá com a minha amada Isulina. Às veiz, quem sabe, além deu mincontrá cum ela, pudia inté cunhecê o sinhô pessoarmente: apertá a sua mão, bejá o seu sagrado manto vermei que fica inriba do otro, verde. Nóis vamo nos sentá - o sinhô vai dexá o seu inseparave evangéio e seu cajado de banda, puruns minutim - e vamo prusiá muito sussegadamente lá no seu rancho. Num vejo a hora disso tudo acuntecê!

_ Bão, meu amigo, eu já vô m'imbora. Me discurpe de novo por tanta falação, mais esse é o meu jeito. Espero, cum muita fé, que o sinhô atenda esse meu pidido. Meu úrtimo pedido aqui nessa terra. Intão, inté mais vê e muitobrigado por tudo, meu São Judas Tadeu!"

Terminado esse diálogo-oração, Geraldo se persigna novamente e se retira da Igreja. Dirige-se ao cemitério municipal. Localiza, rapidamente, a sepultura de Isolina. Ali, de pé, faz suas orações. Após terminá-las, diz:

_ Pois é, minha doce Isulina, breve, muito breve vô te incontrá adonde ocê tivé. Já falei com o meu São Judas Tadeu e ele ficô de ajeitá essa minha viage pra ficá juntim docê de novo! Matá bem matada essa sodade que eu tô docê! Hoje, eu vim cá só pra te dá esse recado e dizê que nada, nadinha mudô cum a sua partida, Isulina, mode que continuo te amano do mesmo jeito: muito, muitissimo! Intão, inté mais vê!

Passaram-se alguns meses. Exatamente, quatro meses. Alfredo retorna à fazenda do amigo. No caminho de volta para a cidade, lembra-se do convite do seu Geraldo: "Quando pudé, dê uma passadinha lá no meu rancho pra prusiá mais um poco e tomá um café cumigo!". Fez o que havia prometido, embora já sendo noite alta. Dirigiu-se para a chácara do seu Geraldo. Seu amigo Geraldo, podia-se dizer assim.

No enorme ipê amarelo parou. O colchete fechado. Buzinou algumas vezes. Nada de alguém aparecer. Segue em frente. Pára na chácara vizinha. Pede informação a respeito de Geraldo.

_ O Gerardo Sirva? Ele morreu tem mais ô meno uns quatro meis. Morreu da mió morte: de repente. Ele morreu drumino, uma semana dispois de sua muié, a Isulina. Eles cumbinava dimais da conta, só o sinhô veno!

Com essa triste resposta, Alfredo é atraido por uma estranha força que guia seus olhos para o céu. Vê, contrastando com toda a escuridão reinante, duas estrelas. Somente duas. Um casal de maravilhosas estrelas de igual tamanho, brilho e beleza. Extasiado com essa visão, Alfredo consegue balbuciar:

_ Geraldo e Isolina...

Mais extasiado ficou Alfredo, quando viu as duas estrelas se aproximando uma da outra até se transformarem em uma só estrela. Estrela única, mais maravilhosa que as duas que ele vira há pouco. Em seguida, ela aumenta e diminui seu brilho por três vezes consecutivas, como se estivesse piscando, e se apaga definitivamente.

Alfredo, então percebe que o amor quando é verdadeiro supera a razão e a compreensão humanas. Sendo assim, consegue driblar até mesmo a morte, inimiga de todos, principalmente daqueles que amam. Amor verdadeiro. Amor puro. Amor simples. Amor sertanejo...

 


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