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LEMBRANÇAS
- Uma história sertaneja de amor
Manhã
belissima. Dessas manhãs que, normalmente, vêm
depois de uma tenebrosa noite chuvosa. Cheiro bom de terra misturado
com o perfume suave das flores campestres, cuidadosamente, transportados
por cativante brisa. As árvores, todas elas, bem limpinhas.
Estavam livres, enfim, da pegajosa poeira e de roupa lavada
realçando, cada uma, sua bonita cor original. Fazia já
algum tempo que elas não desfrutavam um bom e revigorante
banho. Os pássaros em harmoniosa cantoria - uai-uai,
trem-trem - saudando com mais entusiasmo o dia recém-nascido.
Todo esse inimitável espetáculo oferecido, gratuitamente,
pelo nosso Divino Criador. Oferecido a todos. Indistintamente.
Mais belo do que esse espetáculo somente a nossa vida
- enigmática sempre -, com a qual Ele também se
incumbiu de nos brindar.
Adentrando
essa cena e deslizando com certa dificuldade estrada a fora,
um automóvel. Deslizava ora pra um lado, ora pra outro,
pois o que antes era poeira transformara-se em achocolatada
lama: viscosa e escorregadia. Carro novo, de luxo, totalmente
desacostumado com essa estranha e incômoda sensação
de embriaguez. Em seu interior, um único e solitário
ocupante, Alfredo, que viera visitar um amigo. Esse último
comprara, recentemente, uma fazenda por aquelas bandas. Alfredo
não sabia se estava no caminho certo para a cidade, pois
passara antes por uma encruzilhada. Tal preocupação
encontrou sua sepultura quando um pouco mais à frente
avistou um homem à beira da estrada. Homem de setenta
anos, aproximadamente. Alivio.
Alfredo,
cautelosamente, pára seu carro. Precavido, aquele homem
afasta-se. Alfredo abre o vidro:
_
Bom-dia!
_
Bom-dia!
_
Por acaso, o senhor sabe me informar se estou no caminho certo
pra cidade?
_
O caminho é esse mesmo. É só o sinhô
tê atenção, mode que ai mais pra frente
vai tê mais duas incruziada. Só tomá sempre
o rumo da esquerda, que já, já, o sinhô
vai chegá lá na cidade.
Alfredo
observa o homem no seu linguajar simples, que o fazia lembrar
de sua origem humilde. Seus pais, hoje falecidos, foram lavradores.
Ele, com muito esforço e empenho próprios, conseguira
tornar-se em um dos mais renomados advogados do pais. Dificuldades
encontrara muitas, mas nenhuma delas pôde fazer frente
à sua inabalável confiança em que algum
dia poderia ser alguém importante e ocupar destacada
posição na sociedade. Conseguira. Entretanto,
para seu desgosto, não conseguira encontrar a mulher
dos seus sonhos. Tal situação não deixava
de incomodá-lo. Continuava solteiro, mas tinha fé
que algum dia, mais cedo ou mais tarde, encontraria em algum
lugar - fosse onde fosse - a sua alma gêmea. Ai seria
a sua realização plena, absoluta!
_
Por acaso o senhor está indo pra cidade, também?
_
Tô - respondeu, decidido, aquele sertanejo.
_
Bem, se o senhor quiser eu posso lhe dar uma carona. Seria bom,
pois eu gosto muito de conversar. O senhor me faria companhia.
_
Seno assim, eu aceito!
O
homem entra no carro. Constrangido, pede desculpas por sujar
o tapete com a lama abraçada às suas botinas.
Não tem nenhum problema, diz Alfredo. Apresentam-se e
começam a conversar. O homem dizia chamar-se Geraldo
Silva. Possuia, segundo ele, um pedacinho de terra bem próximo
dali, "bem junto daquele ipêzão amarelo ali,
ó". De suas terras, raramente, saia. Muito raramente.
O
carro desliza vagarosamente sobre a estrada enlameada. Alfredo
desliga o som, para dar mais atenção ao seu companheiro
de viagem. Acende um cigarro. Geraldo pede permissão
- tem toda - para acompanhá-lo nesse prazer suicida.
Apanha na capanga um pedaço de palha de milho seca e
um pedaço de fumo. Corre a mão no cinto e apanha
o canivete bem afiado. Alisa com ele a palha até que
ela fique bem lisinha e limpa como se fosse folha de papel industrializado.
Depois, ela é dobrada e passada, com as pontas para baixo,
em volta do dedo médio da mão esquerda. Com os
dedos polegar e indicador da mesma mão - já em
concha - segura o fumo, que vai cortando caprichosamente. Os
pequenos pedaços de fumo vão caindo um a um na
sua mão. Quantidade certa de fumo cortada, guarda o canivete.
Com os dedos da mão direita esfrega-os para separá-los.
Enche a palha com eles. Vai apertando daqui e dali. Quase pronto.
Antes, dá uma boa e caprichada lambida nas bordas da
palha. De fora a fora. Depois amarra, bem firme, com uma tirinha
de palha aquilo que dali a pouco se transformaria em um cigarro.
Bate uma de suas pontas na unha do polegar esquerdo. Leva-o,
finalmente, à boca. Tudo feito com muita calma, sem nenhuma
pressa. Apanha a binga e, por fim, acende o manufaturado cigarro.
Puxa a primeira fumaça com força, fazendo repuxar
um pouco a pele do pescoço. A fumaça azulada e
densa sobe, e os acostumados olhos de Geraldo ficam semicerrados
para evitá-la. Prazer indescritivel. Cheiro? Inconfundivel:
Capoeirinha. Purinho!
Enquanto,
Geraldo preparava seu cigarro, Alfredo falava sobre saudade.
Saudade de uma moça que havia conhecido há alguns
meses.
_
Ingraçado, o sinhô falô em sodade. Sodade...
trem mais difici da gente diliniá cum clareza, né
mesmo?
Geraldo,
passa a mão no queixo, em atitude meditativa. Alisa a
barba rala e grisalha. Coça a cabeça sob o conservadissimo
chapéu de boa marca: Panamá. Depois, ajeita-o.
Olha a brasa do cigarro. Levanta as vistas e olha para o rosto
de Alfredo.
_
Sodade, pra mim que sô quais anarfabeto - que num sei
falá nessa sua linguage imbaraçada - só
posso falá dela tirano comparação cum argum
bicho. De bicho até que eu intendo razuave. Pois sim:
sodade é tali e quar uma cobra!
_
Uma cobra? Que estranho! Mas, por quê, seu Geraldo?
_
Veja se o sinhô num há de concordá cumigo.
Sodade é iguarzinha, iguarzinha as cobra. Essas uma ai
nem andá de a pé, ela snum anda, não sinhô,
mode que nosso Criadô dexô elas de eterno castigo
purelas tê atiçado a bunita Eva a cumê o
fruto proibido lá do Paraiso: a maçã. Inté
agora num consigo intendê o mode que disso: logo a maçã
que é uma fruta das de mió qualidade! Eu apricio
dimais da conta essa fruta, só o sinhô veno. Mais
mió mesmo é nóis dêxá esse
assunto de banda e toca esse nosso, da sodade, pra frente, né
mesmo? Por isso, antão, as cobra num anda! Só
rastêja. A sodade também vem é rastejano,
na mesminha tuada lerda das cobra. Bem divagarim. Vem relano
a gente, bem manerinha. Inté dá de parecé
um gato nesse particulá. Iguar a cobra, a sodade tá
procurano um lugá bão pra se aninhá. Esse
tar tem que sê bem quentim, bem aconchegantizim, mode
que a sodade - sabida tar e quar as cobra - num gosta de friage
de jeito manera! Num precisa sê um lugá de muito
luxo, também não. Tem que sê um lugarzim
bão, iguar esse que falei agorinha pra trais.
Geraldo,
faz uma pequena pausa para dar mais uma tragada no Capoeirinha.
Prossegue:
_
Cabe aqui um reparo. Nóis tamo falano é só
de cobra venenosa, mode que, se fosse das outra, as mansinha,
a cunversa tomava otro rumo. A peçonhenta só gosta
de andá é de noite. Sabida que é, ispera
o dia i drumi pra se alevantá. Quando tudo é um
bréu só, ela tá pronta pra cumeçá
o seu malfazejo trabaio. A sodade, também! Se o sinhô
pois sentido, há de tê notado que inté agora
nóis quais que só falamo de cobra, né mesmo?
Mais a minha cunversa é assim mesmo: de tuada manera,
discansada. A bão, o sinhô sabe antão qualé
o lugá que a sodade iscoe pra pedi pôso pra gente?
A bem da verdade, muitas das veiz a danada nem licença
pede e já vai entrano portêra a dento! Eh, bichinha
danada de tretera... de poca educação ela, a sodade...
_
Não sei que lugar é esse não, seu Geraldo
- diz, Alfredo.
_
Se me permiti, vô dá uma de mão pro sinhô.
Põe sintido: esse lugá num é um quarqué
não! Tem que sê um lugarzim bem quentim, cumo já
falei. Esse lugá, também é de vitar importança
pra nóis tudim. Sem ele, nóis ia ficá parecido
com os bicho.
_
Hum... já sei, o cérebro! - diz, exultante, Alfredo.
_
Quar nada, sô! Miolo até galinha tem, ara! - diz
Geraldo com uma risadinha, no que foi acompanhado por Alfredo.
_
Bom, seu Geraldo, então que lugar é esse?
_
É o coração, sô! - diz Geraldo, eufórico.
_
Coração?!
_
É isso mesmo: coração! É bem lá
dento, bem no méi dele que a sodade gosta de se hospedá.
Ela fica lá bem inrudiadazinha. Quetinha, quetinha...
Na maioria das veiz ela fica tirano um cuchilo. Quando ela dá
de abri os ói, já é de noitinha. Mea assustada,
ispriguiça, e os bração dela isbarra nas
parede do coração, e ai ela se apresenta iguar
uma picada de cobra. Até nesse particulá a sodade
é iguar a cobra, tá veno? Bem divagarim a sodade
vai picano o nosso coração de fora a fora e ele
vai ficando cheim de veneno. Ai é aquela dor sem dilurimento,
isquisita... Os veneno da sodade tem de tudo que é tipo
e qualidade: sodade da mãe, do pai, dos irmão,
daquelotros que já imbarcaro pro otro mundo. Essa dai
é sodade das pió, mode que num tem cunserto, num
tem vorta...
Nesse
ponto, os olhos de Geraldo ficam brilhantes, cheios de lágrimas,
que não deixa rolar rosto abaixo. Respira fundo. Prossegue:
_
Mais uma otra bem dilurida também, é a sodade
do nosso bem-querê! Ai o trem é fei! Nossa Senhora
Paricida! Oh! trem difici de pelejá é esse ai:
sodade do nosso bem-querê!
Geraldo
faz uma pausa, pensativo. Os olhos olhando para dentro do seu
coração. Continua:
_
Sodade sinti muita, dotor Arfredo. Num vô minti. Sodade
sinti muita foi da minha Isulina quando ela teve que se arretirá
daqui pra acumpanhá a mãe dela que tava aduentada
lá na capitar. Até ai, antão, eu só
tava cubano ela. Jeitosinha, bunitinha que só veno! Toda
hora meus ói dava de querê passiá nas curvinha
do corpo dela. Quando ela usava um vistidim de chita todo florido,
antão era um avexame de besta, macho. Ele bem finim rearçava
mais ainda as forma bem feitinha dela... Quando dava de apriciá
ela mais de perto fartava fica doidim da cabeça. Vê
os óim dela me oiano, sua boca caladinha, desejosa da
minha. Isso eu sentia, ara senão! Eita, trem mais bão,
sô! Bão e bonito! Arguém, certa feita, me
disse que "sodade é dô de amô!".
Num há de vê que é isso mesmo, dotor Arfredo!
Foi só dispois dela tê ido pra essa viage, que
eu pude mió intendê esse ditado. Apois, se eu tava
com uma baita sodade dela é mode que eu tava amano ela,
num é certo? E nem sabia. O amô, esse que era pra
mim bicho do mato, que num conhecia, se apresentô, dessa
forma, assim, assim, atravéis da danada da sodade! Tentei
achá jeito de midi esse amô: se era dos graúdo
ou dos miúdo. Num cunsigui... Nium, eu penso, consegue,
mode que ele - o amô - é iguarzim o ar: nóis
num vê ele, só sente. Adimais, eu tenho pra mim
que o amô num tem jeito de midi mode que ele é,
também, iguar o cer, que é dum jeito só:
infinito! Dotor Arfredo, eu acho que já tô amolano
o sinhô cum essa minha falação. Se tivé,
é só falá que eu paro jazim...
_
De jeito nenhum, seu Geraldo. Eu estou gostando muito da conversa
do senhor. Pode continuar que eu estou prestando atenção
- diz Alfredo, ansioso pela continuação daquela
história. Realmente era verdade, pois até diminuiu
ainda mais a velocidade do carro.
_
Seno assim, continuo. Vi a mixida da lua ingordano e imagreceno,
apareceno e disapareceno, num sei quantas veiz, até que
as duas, mãe e fia, vortaro. Ai meu coração,
que andava muchim feito jenipapo, se encheu de aligria e virô
uma melancia bem bitelona, bem firme e vermeia por dento: ducinha
de amô. Amô pra minha Isulina, que num era minha
ainda, mais que argum dia ia de sê, cum certeza. Da casca
dessa melancia fiz armadura. Criei corage. Confesso, dotor Arfredo,
tava fartano. Um tiquim de nada, mais tava! Graças ao
meu São Judas Tadeu, ele acabô de interá
essa corage fartante pra mim.
_
Antes de eu i lá no rancho do pai dela - véião
sisudo, cara amarrada de respeito, poco falá e menos
ainda de ri, como convém a um home, quando se trata desses
assunto que tá cherano a flo de laranjera, ver e grinarda.
Pra i lá preparei inté uma carta. Tudo bem pensado
aqui dento da minha cabeça. Caneta na mão, me
puis a tingi de preto a foia de paper branca. Só antão
fui vê o quanto é difici falá desse assunto
de sintimento. O trem já cumeçô a imbaraçá
logo no iniço. Achei pur bem botá nome nesse meu
arrazuado. Isso pra ele ficá assim mais paricido cum
uma poesia ou sei lá o quê. Pensei e pensei. Cocei
a cabeça, a nuca, os uvido. Alisei a barba. Até
que pur fim atinei cum nome que me pareceu muito bãozim.
Cumo era uma carta que eu tava mandano pra ela - pra minha Isulina
- pus um nome assim: "Deu, procê". Esse nome
me pareceu mais razuave mode que se essa carta caisse em mãos
otras que não as dela, ninguém sabiria dizê
quem era o autô, o "eu". Num assinei nada não!
Essa carta pudia tê sido iscrita por quarque um que tivesse
do mesmo jeito que eu: apaxonado. O mensagero é que ia
dizê que era eu - Gerardo Sirva - que tinha iscrito pra
ela. A carta tenho inté hoje. Pur um acaso tá
até aqui dento da minha capanga.
Geraldo
mergulha a sua mão na capanga e fisca uma folha bem amarelada.
Diz, exultante:
_
Num falei! Aqui tá ela: amarilinha, amarilinha, mais
tá cum as letra tudinho ai, do jeito que ela chegô
nas mãozinha do meu bem-querê a mais de quarenta
ano. Nem perguntei, se o sinhô qué ovi...
_
Mas é claro, seu Geraldo. Faça o favor! - responde,
Alfredo, mais ansioso do que nunca.
_
Pois antão, põe sintido - diz Geraldo, tomando
fôlego e procurando impostar a voz como se fosse locutor
de rádio:
"D'EU, PR'OCÊ"
"Hoje
abri os ói bem tardizão: os pontrro do relogi
bem isticado - bem retim - feito corda de violão. O ponterão
- o ligero - apontano pro céu, e o ponterim - o lerdo
- apontano cá pra terra: seis em ponto! Cumo faço
todo dia, cunversei primero cum meu amigo e santo de fé:
meu São Judas Tadeu. Dispois de encerrada essa boa prosa
matinar, meus pensamento galopô disimbestado pro seu rumo.
Nessa horinha ixata, gostaria de sê pueta, mais pueta
num sô. Só quisera sê. Pueta não desses
um quarque não! Mais quiria sê pueta dos bão,
cum muito traquejo na pena e no paper mode podê compará
sua bunita pessoinha a essas tanta coisa que esses um tão
bem sabe falá. Compará ocê ao má,
que num cunheço, mais que argum dia vô a ele me
apresentá. Mais, cumo Deus num dexa nada fartar, deu
pra todos nóis otras beleza, que tais, pra admirá:
o cér, as nuve, as istrela, o sor, as cachuera, cum seu
bunito cantá. Mais todas essas beleza os home de hoje
num sabe apriciá. Só pocos, muito pocos. Mais
eu seno um caipira minero a elas sube me apegá. Antão
em seno assim, quero a todas elas lhe compará. Me discurpe
si num gostá. Cumo já falei: num sô pueta,
mais sô sentimentar.
Ocê,
pra mim é um cér: infinito. Infinito no seu muito
gostá. A sua pele maciinha e branca é as nuve.
Purinha! Seus ói briante só às istrela
posso mió compará. Eles alumiô e transformô
o que até antão era um istradão iscuro
e fêi, numa avinida bem luminosa e de beleza sem iguar.
Seu coração é o sor, que quando isbarrô
no meu coração - que tava bem geladim feito preda
d'água -, se derreteu todim mode ocê. Derreteno
essa coraça gelada apareceu uma otra coisa: um coraçãozão
bem incarnado e quente aparentado cum brasa que nem eu própri
sabia de existi. Foi ocê que me ajudô a discubri
ele e pur isso tudo devo de lhe agradecê. As cachuera,
imbora seno de água doce e cristalina, são suas
lágrima que pur mim, jamais há de derramá.
Pra isso vô me isforçá! Lágrima sua
só posso de aceitá na horinha ixata que nóis
fô amá. Ai sim, é bão. Lágrima
sincera, verdadera, conforme o meu gostá. Lágrima
só-somente de amô, nunca- nunquinha de dô.
Apois,
minha prefumosa Isulina, ocê vai sê minha mió
amiga, cum quem vô gostá tanto de cunversá.
Cunversá sem pará inté os pontero do relogi,
de tanto rodá, tuntiá e dêxá a nossa
prosa cuntinuá até nóis cansá. Ocê
vai sê minha minina, que eu vô gostá de zelá
cum todo carim, cuidano pra num te maguá. Ocê vai
sê minha cumpanhera que vai tá sempre ao meu lado
a me orientá. Ocê vai sê minha amante que
eu vô gostá tanto de acarinhá. Ocê,
pur urtimo e finarmente, vai sê a muié que eu tanto
vô amá. Amá pra sempre!"
_
Seu Geraldo, mas essa carta ficou muito bonita. Bonita, mesmo!
A sua Isolina o que ela achou? Ela respondeu?
_
Brigado, dotor Arfredo. Mais vamo divagá. Tenha carma
e paciença. Eu, nessas arturas, atinei que divia ficá
só por ai mesmo. Num quis me alongá mais não,
mode pudia sê que acabasse iscreveno arguma coisa que
ela num gostasse. Eu botá o carro na frente dos boi?
Isso nunca! Pudia de tê dispidido c'um abraço ô
inté cum bejo. Mais ricui esses pensamento ligerim, ligerim,
mode que pudia dá a intendê pra ela que eu tava
era cunvidano ela pra barganhá uns arroxo. Ela, muito
decente e coisa e tar, certamente, que num ia gostá de
forma arguma dessa liviana proposta. A época de barganhá
esses arrôxo ia chegá. Disso eu tinha certeza!
Era só ter carma e paciença. Isso eu tenho. Muita,
graças a Deus!
_
Intão, li essa carta uma veiz. Li de novo. Li outra veiz.
Li num sei quantas veiz pra vê se tinha cunsiguido passá
pro paper o que tava dento do meu coração. Achei,
que sim. Essa carta era a minha cara, mode que iscrevo do jeito
que falo. Otra preocupação que deu pra isquentá
a minha cabeça foi as dura regra gramaticar! Vai vê
que essa minha carta tava cheinha de erro de portugueis. Erro
de variados tamãim e de diversas gravidade, pois, cumo
já disse, iscrevo do jeitim que falo, tar e quar! Seno
essa carta mais ô meno anônima, num pudia nem pidi
ajuda ao meu istimado professô Primarino, pudia. Pensei
cá cumigo: num faiz mal. Os erro, eles tudim junto num
daria de tirá o sintido do meu apaxonado ixpressá.
Gostei muito de umas rimazinha que prantei lá pelo mei
da carta: cantá cum apriciá, compará cum
apegá, acarinhá cum amá e tantas otras.
Tão intusiasmado fiquei cum isso que andei co'a cabeça
na lua e os pensamento nas istrela a vê se cunsiguia versejá
mais. Andei fazeno mais uns treis ô quatro versim. Num
gostei. Achei sem graça, insonso. Disacurçuei,
di vera! Incerrei purai esse oficio de pueta. Se Deus num me
deu esse dom de iscrevê puesia, eu é que num vô
atrais disso de jeito Nium! Mió mesmo é dêxá
queto pra lá!
Já
com outro cigarro de palha nos lábios, Geraldo continua
a sua história para Alfredo, seu absorto ouvinte:
_
Otra preocupação minha, dotor Arfredo, foi pra
arrumá um mensagero. Pensei em mais duma dúzia
deles. Mais fartava cunfiança. Eles tudim muito linguarudo
e amigos da alambicada. Era só enchê a cara dessa
perversa e ai pronto: o mundo intero ficava sabeno dessa minha
secreta arrumação! Acabei dano cum pensamento
no meu amigo Totõim. Impussive esse um dá co'a
lingua nos dente: ele é mudo. Mudo e surdo. Pra miorá
mais ainda essa situação pra minha banda, a linguage
dele - de cumpricados sinale - pocas pessoa intende. Eu sô
um desses poco. Acertei tudim cum ele. Totõim se riu
- risim de mudo - muito dessa minha paxão. Prometeu e
agarantiu segredo, que era assim representado: bejos nos dois
dedo fura-bolo. Bejava um, depois bejava o otro. Eles cruzado
inriba da boca! Segredo mais aparentado cum juramento. Esse
meu iscrito ia cum ele pra dibaxo da terra, assim me agarantiu
Totõim. Seno assim fiquei discansado e aguardano resposta
ô quarque coisinha, um sinarzim que fosse da minha Isulina.
_
Veja só o sinhô, dotor Arfredo. Cumo se tudo isso
num bastasse, fiz inté umas incenação,
feito tiatro - bem iscundido, lá nuns grotão bem
apartado de tudo e de todos - imaginano quando chegasse a hora
d'eu i fazê a visita pro povo dela. Uma visita cum cara
de pidido. Pidi a mão da Isulina pra namoro, primeiro.
Dispois, pra noivado. E finarmente, pra casório. Tratei
de arrumá e trená umas fala de maior ricurso:
tudo muito bem acentuado, nos ponto, nas virgula, nos travessão
e nos ponto finar. Fazia de conta que as arve era o seu Herculano.
Esse é o nome do pai da Isulina. Uma hora era um jacarandá,
otra um ipê, uma aruera, uma peroba, um cedro. No finar
das conta, esses uns tudim já inté me cunheciam
de tanto eu trená cum eles. Eles divia de pensá
lá cum suas foia: "Lá invém o doido,
coitado!". De nada, nadinha tudo isso - o tiatro, a falação
mais aprumada - me adiantô, pois vô morrê
do jeito que nasci: muito avexado e poco faladô quando
se trata desse assunto sériozão. Adimais, a minha
cabeça num dá de decorá nada! Tudo isso
eu tinha de enfrentá sozim, pois ninguém sabia
de nada não! Nem minha mãe!
_
Tá doido! Mas que situação mais complicada
essa sua, seu Geraldo! Nossa Senhora!
_
Pois num é, dotor Arfredo! Passei maus bucado cum essa
minha peleja. Pois bem, a resposta de Isulina vei, mais custô!
Custô pra mim bem umas cinco noite cum os ói istatalado,
oiano sem oiá, sem nada vê. Só pensano no
que havera de tê acunticido pra mutivá tamanha
demora na resposta: se ela aceitava ô não a minha
proposta de namoro. Preocupação muita. Deu inté
de branquiá um mundaréu de fio dos meus cabelo.
Ela, a preocupação - perversa de nascença
- pintô, também, de carvão imbaxo dos meus
ói. Do fugão, eu quiria distança: muitos
passo. Mãe deu de me pagiá cum mais disvelo. Disvelo
iguar quando a gente ainda usa carça curta ou nada mesmo.
Ela veno eu assim, assim, arridio, mei que aluado. Preocupada
ficô, coitada! Ela num sabia direito o que tava aconteceno.
Só discunfiava. Discunfiô, certim! Só pudia
sê amô! E era mesmo. Danada, a minha mãe.
_
A tar resposta vei atravéis de mensagera da cunfiança
da Isulina. Resposta que me pegô catirano as ferradura
de meu amigo-cavalo, o Alazão. Resposta curtinha e seca,
cumo a própria mensagera dela. Assim vei ixpressa: que
ela, Isulina, tinha muito apreço pela minha pessoa e
que, quereno, pudia tocá minhas pretensão de namoro
pra frente, que da parte dela incontrava acuida. A alegria foi
tanta que sai feito doido pasto a fora. Minha mãe só
me oiano. Dispuis contei tudim pra ela. E mode que não
havera de ser assim? Ela é minha mió amiga, ara
se não!
_
Me alembro bem daquele dia. Dia de i lá no rancho do
seu Herculano, pai da Isulina. Tomei um bãi bem demorado,
mais de hora. Sabão de pelota gastei um intero. Bucha
de chuchu mais um poco, mode que nóis que luta na terra
adquirimo, com o passá do tempo, a cô e o chero
dela. Passei banha de porco no cabelo. Protegeno ele, o bunito
chapelão Panamá, que largô sua redonda casa
e foi direto pro topo da minha cabeça e tá aqui
até hoje. Conservadão, que só, né
mesmo? Vesti minha ropa dominguera. Todinha ela bem na goma.
Capricho medonho de minha mãe, que passô a fazê
muito gosto nesse enlace, mode que ela veno toda essa minha
alegriazona se alegrava também. Mãe, se preocupava
me veno assim, sem ninguém pra agasaiá dento dos
peito. Além do mais, eu já tava caminhano firme
pros trinta e nada de namorá. Namorá, nem nada.
Nada, mesmo! Carcei minha butina nova. Novinha, novinha. Ela
num tinha cantado nem uma única veiz. Mas quando dei
cum ela os primeiro passo, foi aquela belezura. Essa canturia
dela dava de ouvi longe, sempre sob a regênça do
meu ligero caminhá. Tudo pronto, arriei meu cavalo, de
batismo, Alazão, cumo já falei. Arriei ele com
minha mió cela, que num era de prata, não sinhô.
Quem sou eu - mas os ferro dela briano, refretino bem refretido
os raio do sor, que era uma beleza. Pidi bença à
minha mãe e por ela fui mais abençuado do que
o habituar, mode que ia precisá de um adjutoriozim a
mais nessa minha sentimentar impreitada.
_
Botei macha de regalo no Alazão mode dá mais tempo
de i me aconseiano cum vento o que ia falá pro seu Herculano.
Quanto mais chegava perto do rancho dele mais meu coração
disatinava a batê todo atrapaiado: uma pancadona forte,
otra bem fraquinha. Tinha hora que nem sinti o danado sintia.
Parecia inté que ia morrê. "Logo eu que num
tenho medo de assombração, de mula-sem-cabeça,
de muié de sete metro, cum essa bobage!" pensava
eu. Medo só tenho - um poquim só, quando em veiz
- de morto e de gente viva. Medim à-tôa que num
dá de me alarma muito não! Num acredito em vivente
de todo, todim disasombrado não, viu dotor Arfredo! Afinar
de conta, o medo também acaba, em certas ocasião,
se tornano até nosso amigo, nos protegeno de pirigo mais
agraduado, né mesmo?
_
Pois bem, já cum a noite quais ingulino a tarde cheguei
no corchete do rancho do seu Herculano. Dadonde tava quem eu
cunsigui divisá? Ela! A Isulina, o meu bem-querê.
Quando a gente tá nessa arrumação de apaxonado
as vista da gente parece que até mióra. O coração
parece que vira lente de armento pra banda de quem a gente gosta.
Ela - a Isulina - toda arrumadinha. Parecia até que meu
coração tinha mandado recado pra ela, que eu ia
lá na casa do pai dela naquela quais noite. Essas coisa
que acontece, nóis num sabe, ao certo, ixplicá.
Ela me avistô também com as lente do coração
dela. Isulina tratô de i lá pra dento da casa e
chamô o pai dela, seu Herculano. Esse um se apresentô
na solera da casa. As mãos socada nos borsão da
carça de argudão que tinha lá umas listrinha
poca de fora a fora. Os ói dele mirano a minha pessoa.
Nessas arturas, virei pessoinha: fiquei miudim, miudim, do tamãim
dum anão. Acabei de chegá. Apiei do Alazão
cum poco de dificurdade. As perna num tava quereno me obedecê:
tremeno, tremeno. Disfarcei. Num sei se cunsigui. Fui logo tirano
o chaper em sinal de respeito e consideração.
Isso, toda vida tive, principarmente, pelos mais véi.
Cumprimentei seu Herculano, e a nossa cunversa foi mais ô
meno assim:
_
"Boas, seu Herculano!
_
Boas, seu Gerardo! Que nuvidades são essa? Sua pessoa,
por aqui no meu rancho?"
_
Ele respondeu, mei que inquirino. Discunfiadão. De imediato,
quais perdi o fôlego. Cum ele só tinha me encontrado
pocas veiz. Ele chegô a cunhecê meu finado pai.
Cunhicia, também, minha mãe e mais arguns do meu
povo. Mais, eu própri, num cunhicia direito não!
Esse era o motivo maió dessa discunfiaça dele.
Armentô muito foi por causa disso. Isso que antes era
só uma cismazinha, agora, passado tantos ano, virô
certeza bem agarantida. O meu coração, coitado,
pulano disguvernado dento do meu peito. Eu tentano acarmá
ele. Mais como? Se nesses assuntos ele - o coração
- é que é o rei e nóis todos somo seus
vassalo?
_
Dicidido, seu Herculano, me cunvidô, cum voiz paricida
cum orde de quarté:
_
"Vamo passá pra dento, seu Gerardo.
_
Pois, sim - respondi bem baxim. Acho que ele nem ouvi, ouviu."
_
Entremo casa a dento. Eu na frente. Nas lingua trasera da minha
butina, o seu Herculano. A mininada esparramada por tudo que
era canto mode mió podê me ispioná. Só
se ôvia os cuchicho deles mode a minha presença
lá! Tudo se ajeitô quando seu Herculano acabô
de chegá na sala. Silêncio de morte. Tive a impressão
que inté as mosca - teimosa pur natureza - tinha respeito
pur ele. Num ficô nenhuma. Fugiram tudinha sem dexar nem
lembrança do seu imitá os avião. Apois,
dotor Arfredo, sentamo cada quar numa caderona de peroba bem
pesadona. Ele bem distacado lá na cabicera da mesa. Eu
cá, bem miudim, quais nos pé dela. Agunia. Agunia
que armentô quando ele apoiô os bração
forte dele inriba da mesa. Cruzô as mão e cumeçô
a rodá os dois dedão polegá. Uma hora pra
frente, otra hora pra trais. Cada rodada daqueles dedão
mais armentava a minha agunia, que já era do tamãim
de um trem. Num sabia se oiava pros dedo ou pros ói dele,
que me oiava firme, quais me furano. Antão, cumo era
visita, achei pur bem intabulá quarque assunto pra vê
se eu ficava mais carmo! Pelo menos mais arrelaxado. Lá
fui eu, arriscano um cumeço de prosa:
_
"Apois, seu Herculano, tive nutiça que o sinhô
é pescadô dos bão!"
_
Eu disse isso ai, dotor Arfredo, mintino pela razão já
dita: cumeçá uma prosa. Tinha nutiça disso
nada, não! A única nutiça que eu tinha,
pur sê verdadera, era que o seu Herculano era muito brabo.
Na juventude tinha feito o diabo. Nunca levô disaforo
pra casa de jeito e de tamãim Nium! Assim diz os mais
véi dessas bandas de cá. A respostona dele num
tardô nium tiquim. Vei ligera que só um raio:
_
O sinhô, seu Gerardo, deve de tá é muito
malinformado. Nunca andei cum essa mixida de pescaria não!
Eu detesto! Esses pescadô são tudo gente ordinária...eles
num vale niuma prata de réis furada!
_
Fiquei disacorçoadim de tudo, só veno! Cumo essa
resposta me pegô de todo disprivinido, as vista dero de
querê apagá, inguli um restim de cuspe que ainda
tinha na boca güela abaxo. Devo de tê ficado bem
amarilim! Mais insisti e persisti notra prosa mais ô meno
iguar:
_
"Mais uma caçadinha, seu Herculano, que tar?
_
Detesto mais ainda!"
_
Foi a resposta curtinha e dura dele! Ai foi que eu vi que a
cunversa tinha azedado pra valê. Minguo meu assunto e
minha corage foi junto! Apelei pur tudo que foi santo pra me
ajudá naquela hora de minha maió afrição.
Bati parma nas porta das casa deles tudim. Foi ai, antão,
que ouvi uma voizinha no meu pé duvido: "Fale sobre
passarim, que ele gosta e entende muito!". De quem era
essa voiz eu num sei ao certo, mas adiscunfio que ela era do
meu grande amigo, o poderoso São Judas Tadeu! Distronquei,
sem pestanejá, a cunversa pra esse rumo. Ai o home mudô
inté as feição: de emburrado aluno passô
a bem falante professô. "Muitobrigado, meu São
Judas Tadeu! Mais óia, num dexa eu tocá num assunto
que o seu Herculano num goste, sinão eu tô no sar!"
- era só o que os meu miolo num cansava de falá
pra esse meu santo de minha devoção e de minha
istima.
_
Seu Herculano só falano, e eu mais atento que aluno cum
medo de carçá as luva de madera: a parmatória.
Mais, de veiz em quando, fazia lá um apartizim, bem levizim
pra num dêxá o assunto iscapuli e eu num tê
otro pra puxá. Ou pió ainda: puxá um assunto
que num agradasse o seu Herculano, iguar esses de caçada
e pescaria. Esse assunto novo ai, dos passarim, tava de muito
bom tamãim, apesá deu intendê bem poco,
quais nada mesmo. Ele, todo intusiasmado com os passarim. Inté
me ofereceu uma cachacinha, que eu - veiaco - recusei de prano!
Cachaça boa, afamada, de seu alambique particulá,
o mió da redondeza, apreguava ele. Pela sua carona -
satisfeitão -, ele apriciô, esse meu procedê.
As veiz pudia de sê inté cilada dele pra vê
se eu tinha arguma discaida pro rumo da branquinha e que quisesse
morá cum ela em sua casa - lá no alambicão
todo de cobre - como seu eterno hospe, cumo tantos otro coitado
que tem por ai. "Brigado, de novo, meu São Judas
Tadeu!" - os meu miôlo falano pro meu santo todo
minuto, todo segundo. Coitado do meu santo! Às veiz,
ele pode de tê até ficado aburricido com essa mixida,
cum essa ladainha de tanto agradicimento. Às veiz, também
não. "Muito pidi e poco agradece" é
o que mais acontece nesses assunto divino. Recusada a cachaça,
aceitei café. Tomei inté mais que divia, pra agradá
a dona da casa, sinhá Emerenciana. Cumi bem uns deiz
pão de quejo, pelo mesmo mutivo. A cunversa só
avolumano: o que antes num passava de um reguim à-toa,
tomano corpo, pareceno até o riozão Amazona! Eu
só achano bão dimais da conta e fortaleceno meu
isprito de cunfiança. Cheguei inté - veja o sinhô,
dotor Arfredo - de tirá lá umas brincaderinha
cum seu Herculano. Poquinha, mais muito respeitosa e elogiosa
pra banda dele. Claro que eu num sô besta! Os peitão
dele inchô feito balão de festa junina. Pura satisfação.
Todo mundo - nesse mundão - gosta de sê elogiado,
ara si não, né mesmo? A cunversa ia fruindo do
mesmo jeito que ia fruindo a alambicada pro grobo do seu Herculano.
Umas bem contada trêis ô quatro. Quando apercebi
que ele já tava mais afroxado no seu rigorosismo paternar,
fui rudiano, rudiano a cunversa, até chegá aonde
quiria: pidi a permissão dele mode tocá namoro
cum a minha amada, a fia primera dele, a minha tão adorada
Isulina. Garganta bem limpinha, lavada, incerada, bem lustrosa,
falei:
_
"Pois é, seu Herculano! O rear mutivo dessa minha
visita é que eu quiria pidi a permissão do sinhô
mode tocá namoro cum a sua fia..."
_
Só cum essa frase arriei chão abaxo o peso de
um carro-de-boi cheim de quarque coisa. Meu coração
pulano feito mii na sua mágica transformação
pra dispois virá pipoca. Ôei pro rumo da porta,
que tava bem abertona me convidano pra sai: pur bem - a cunvite
- ou pur mar - na base do pescoção! Alazão
lá de prontidão: sô pono sintido na cunversa
de nóis dois home. Cumo ele é meu amigo de certo
que tava torceno muito pur mim.
A
resposta vortou com otra pirgunta:
_
"A quar delas, seu Gerardo?
_
A mais véia... a Isulina!" - disimbuchei numa só
tuada. Mais sempre com os meus ói passeano num vaivém
sem fim: ora na carona dele, ora na porta, ora no meu Alazão.
_
Seu Herculano se levantô e istralô, cum as duas
mão abertona, um tapa inriba da mesa que pur poco num
quebrava era tudo. Eu fui quais mais ligero do que pensamento.
Já tava com as butina na porta, doido pra podê
ajeitá elas nos estribo da sela do Alazão, quando
ovi ele dizê:
_
"Aliluia! Brigado, meu Santo Antõim!"
_
Só sei dizê que fui num otro mundo quarqué
e vortei. Vortei pra esse praneta: pra mesminha mesa e pro mesmim
lugá que tava antes acomodado. Todo sero, comportado,
como se num tivesse tentado fugi de medo do seu Herculano e
de sua reconhecida brabeza. Passada essa malintendida tempestade,
tudo serenô. Tudo carmim, carmim feito lagoa quando num
tá em época de ventania, que fica iguarzim ispei.
_
O mutivo dessa alegria toda do seu Herculano, ele me revelô
assim:
_
"Pois é, seu Gerardo! Pensei, inté que a
minha fia Isulina ia ficá na pratilêra. Já
tava ficano erada, quais na casa dos vinte..."
_
Dai pra frente foi aquele disfiá de elogio dele pra Isulina:
trabaiadera iguar num tinha. Sabia fazê de um tudo, eticeta
e tar. Mais eu num quiria sabê de nada disso. Queria mesmo
era ela pertim de mim mode nóis cunversá, eu acarinhá
ela e ela me acarinhá. Sei dizé que as grade que
segura os meus peito quais rebenta mode segurá meu coração.
Ele era só aligria. Aligria purinha, purinha. Bunita
tar quar aligria de minino que vai assisti ispetaco de circo
pela primera veiz!
_
Terminada toda essa elugiação - bem miricida,
pur sinar -, seu Herculano assim falô pra sinhá
Emerenciana:
_
"Muié, traiz a Isulina pra cá mode cunhecê
seu pretendente pra namoro, o seu Gerardo!"
_
Dai a poco, dotor Arfredo, vei ela rebocada pela sinhá
Emerenciana. A coitadinha, avexadinha, avexadinha. Quêxo
pregado no covir dos peito. Os óim dela quereno e num
quereno me dirigi sua luiz. As mãozinha dela toda incrunvinhadazinha
inriba da barriga. Tudo que há de mais belo nesse mundão
gigantesco - istrela, cer, mar, sor, o acordá e o dormi
dele - bem arreunido naquele corpim da minha Isulina! Dai pra
frente eu num sei nem nuticiá direito... Acho que foi
tanta aligria que os meus miolo entraro tudim em disorde: dançano
uma boa fulia. Num me alembro de nada, nadinha... Só
da minha muita aligria. Quanta!
_ Todavia, me alembro muito bem, que quando ia me arretirano
daquela casa, seu Herculano me chamô pruma cunversa reservada:
tarveiz de futuro sogro pra futuro genro. Antigamente, num tinha
essa namoração disavergonhada de hoje não,
dotor Arfredo. As muié num ficava catirano de namorado
toda hora não! Ixprimentano os beiço dum, ixprimentano
os beiço dotro. Num tinha isso de jeito nium. Essas uma
ai logo, logo levava nome de muié alegre, pecadora da
pió ispéci. O certo, o correto acuntecê
era namorá, noivá e casá logo cum primero
namorado! Num sei dizê se isso é bão ou
rúim... Tudo sem muita demora, sem muita lenga-lenga
e essas discurpa de gente que num qué nada de compromisso:
"vamo isperá as coisas miorá, eticeta e tar.".
Era no mais tardá trêis, quatro meis, já
tava os dois subino as iscada da igreja. Mais isso, hoje em
dia, num ixiste mais não. Acho que cumpricou muito mode
que o povo de hoje só qué namorá, namorá
e nada de casá!
_
Mais cumo eu ia dizeno sobre a cunversa reservada cum seu Herculano.
Ela foi tida e havida longe das vista de todo mundo: da muié
dele, dos fio e das fia, também. Advertença sera,
de fazê tremê quarquer vivente. Eu trimi muito,
confesso! Advertença que me foi dirigida, mais ô
meno, nesses termo:
_
"Apois, seu Gerardo! Tô permitino o namoro do sinhô
com a minha fia Isulina. Ela é moça decente, de
respeito, trabaiadera, cumo já falei. Criada nas regra
do bom procedê. O sinhô, pelo poco que sei de sua
pessoa, é home decente também, trabaiadô,
de famia boa, de respeito, eticeta e tar. Quero dexá,
pur via das dúvida, só uma recumendação:
nem pense em judiá de Isulina, sinão eu mesmo
vô enchê o sinhô de chumbo, tá ouvino?
Tome muita precarção cum esse meu consei..."
_
Nesse ponto, seu Herculano mais se assemeiava à inxofrenta
criatura: os ói dele ficaro vermei, vermei, cheim de
sangue. A cara virô pedra pura. As sobranceia dele deram
as mão. Cumo se isso num bastasse, ele alevantô
um poco a camisa da banda esquerda da barriga e me mostrô
- bem aninhado lá - o parabelão que já
tinha feito muito buraco no côro daqueles uns que acharo
que pudia mais que ele! Ai foi que me tremi todim. Percebeno
esse meu estado, seu Herculano, passô o bração
isquerdo dele no meu costado: me abraçô. Um mei
abraço. Pois, num é? Saiu me arrastano, jeitoso,
até o Alazão. Mais essa advertença ficô
bem apregada no meu coração iguar o Nosso Sinhô
na cruiz. Pra toda vida, sigui ela bem a risca pra evitá
quarque estrago nos meus côro! Ela nasceu advertença
e morreu advertença, pois inté discuti cum a Isulina,
nunca discuti. Nunquinha! Nóis dois cumbinamo bem a vida
intera. Ela adivinhava inté meus pensamento, os meus
desejo, os meus gosto. Tudim, tudim, e eu adivinhava os dela
também! Introsamo, di vera!
_
Tocamo namoro mais uns pocos meis. Dispois, noivamo. Tudo facim,
pois me agradei de todos da famia dela: do seu Herculano, da
sinhá Emerenciana, dos irmão e das irmã
dela. E eles se afeiçoaro à minha pessoa, também.
Graças a Deus! Cunversava cum o chefe daquela famia horas
e horas. Desse meu procedê, Isulina reclamô. Deu
inté de inciumá. Veja só o sinhô!
Dei razão pra ela. Riduzi um pouco a cunversa com o futuro
sogro e discambei pra banda dela, que era inté muito
mió, sem dúvida. Eu só sei que dai mais
umas trêis lua, eu e Isulina, finarmente, nos casamo.
Aliançamo os nosso coração, cum tudo que
tinha dento, perante a Santa Igreja Católica. Perante
ela e todo mundo daqui. Muita gente - os amigo, os parente e
os familiá das duas banda - foi vê nosso casório.
Fiquei satisfeitão de tá casano cum a muié
que mais amava nesse mundo! Ela, também, agradava muito
da minha pessoa e me amava di vera!
Do
alto da serra, ambos avistaram a pequena cidade. Mais alguns
minutos e estava terminada aquela boa conversa.
_
Ara, dotor Arfredo! Já tamo chegano, né mesmo?
_
É, seu Geraldo. Chegamos rápido, infelizmente.
Isso, porque o senhor tem uma prosa muito boa ...
_
Quar nada! Isso é bondade do sinhô, que é
home de fina educação e que num qué ofendê
esse véio aqui!
_
Nada disso! Como o senhor mesmo diz, o que eu falei é
"verdade-verdadera"!
Ambos
riem. Seu Geraldo, após muita insistência do Dr.
Alfredo, diz o lugar onde queria ficar. O que antes era "Num
se preocupe cum isso. Quarque lugá tá bão,
sô!" encontra seu paradeiro: na igreja. Igreja São
Judas Tadeu. Despedem-se, calorosamente. O advogado, convidado
para numa próxima vez, ir tomar um cafézinho na
chácara do Seu Geraldo. Tudo acertado na base da promessa.
E promessa é divida, conforme asseverou esse último.
Cada qual seguiu seu rumo.
O
sertanejo sobe a pequena escadaria da Igreja. Vazia. Silêncio
absoluto. Logo à entrada retira o chapéu com a
mão esquerda e o apóia contra o peito. Persigna-se.
Bem destacado no altar a enorme e bela imagem do seu santo e
amigo, São Judas Tadeu. Aproxima-se dela e com o santo
tem a seguinte conversa:
_
"Meu inestimave amigo de tantos ano, São Judas Tadeu!
Tô alegrão de tá podeno visitá o
sinhô na sua sagrada casa. É sempre muito bão
podê, de veiz em quando, visitá os amigo, né
mesmo, sô? Pois é, meu santo, o sinhô viu
o cumpanhero que me troxe até aqui? Sujeito bão
dimais da conta, o dotor Arfredo! Tenho pra mim que ele tá
apaxonado. Logo no iniço da nossa cunversa ele vei com
aquela história de que tá cum sodade de uma moça
lá das banda dele e coisa e tar... Ele tá é
iguarzim um otro que o sinhô cunhece muito bem, né!"
Geraldo
ri baixinho dessa recordação. Continua:
_"Pois
é, meu São Judas Tadeu, eu também tô
cuma sodade danada. Uma sodade muito diferente daquela sufrida
por mim há uns 40 anos. Aquela, cumo o sinhô sabe,
teve reparo, teve cunserto. Essa otra que tá aqui dento
do meu peito, essa já num tem! É sodade muito
mais dilurida do que dô de dente, mar comparano. Essa
dô é tanta que dei inté de ficá revortado
cum o nosso Divino Criadô! Achei que ele num pudia de
tê feito isso cumigo: apartá a Isulina de mim e
levá ela pra junto Dele! Fiquei, divera, inraivado, revortadim
de tudo. Num há de vê que inté ciúme
sinti? Ele disfrutano da compania muito ispiciar da minha Isulina
e eu aqui sózim, sózim, amargano essa triste dô
que é a dô da separação pra todo
o sempre!
_
Cum tudo isso me revortei e Dele também tive muita raiva,
num vô minti! Cumparei Ele a um desses home que tem esses
buneco chamado marionete, que faiz de um tudo. Ele, forgadão,
lá de cima cum as cordinha - que é a nossa vida
- nas Suas poderosa mão e nóis cá imbaxo
cumprino o que ele manda nóis fazê. Ele pur certo
dizia lá pros santo mais próximo dele, só
tirano brincadera. Só cum os otro santo, mode que ele
sabe de nossa sincera amizade. Ai Ele divia de ficá avexado,
sem graça de fazê essas brincadera com o sinhô
pur perto. Mais imagino que a brincadera divia de sê mais
ô menos assim: "'Qué vê, meus amigo?
Eu agora vô fazê o Gerardo pulá." Eu
cá imbaxo, sem de nada sabê, pulava. "Agora
ele vai pitá!". E eu, pitava. Tudo inquanto era
orde imanada Dele, todos nóis cumprimo, sem pestanejá,
sem sabê dadonde elas tão vino ao certo. Tudo em
segredo bem secreto. Segredo que já num é nem
segredo mais, é mistéro. Mistéro que num
passa de um segredo mais agraduado.
_
Pensano bem, toda essa nossa vida é um verdadero mistéro,
pois num sabemo, de forma arguma, o que vai acuntecê nem
daqui a um sicundo siqué! Tudo iscuro e nebuloso iguar
uma tempestade. Só Ele, poderosão sabe! Sabe tudo!
Mais parece que Ele num sabe é o tamãim do meu
sufrimento que ele tá me fazeno passá. Ou será
que sabe e se adiverte cum tudo isso? Será pussive, meu
São Judas Tadeu?
_
Pois sim, no fugaréu dessa minha revorta inté
duvidei da divina ixistênça Dele. Disatinei a pensá
iguarzim os ateu! Cá cumigo fiquei pensano quar seria
a nossa recompensa pur triá os cumpricado caminho do
Bem - que são danado de istreitim feito pingüela
-, de sigui as norma da Santa Igreja, de cumpri tudo inquanto
é promessa - as mais diversa e variada -, de muito rezá,
de muito fazê pelos mais necessitado do que nóis
mesmo. A paga que Ele nos dá por tudo isso é a
morte. Morte que nóis todo já presenciamo nas
pessoa quirida que já imbarcaro prum otro mundo, que
nóis num sabemo qualé e nem adonde fica. Nium
que já foi de viage permanente pra esse mundo vortô
pra nuticiá para nóis, que estamos inriba da terra,
cumo é que é esse um ai! Se presta ou se num presta.
Se é bão ou se é rúim! Nium, Nium
mesmo nunca vortô. Disso nunca tive nutiça! Meus
pensamento ferveno cada veiz mais no óleo pirigoso e
quente da raiva e da revorta.
_
Pois assim foi, meu São Judas Tadeu. Mais dispois, mais
carmo, cum a cabeça mais fresca, atinei pra uma coisa
que me aliviô bem. Me confortô, somente, mode que
a dô que eu ainda sinto cum a perda da minha Isulina é
muito grande! Me pirguntei qualé o pai que qué
o mal dos fi. Eu mesmo rispondi: Nium. Nium dos bão,
mode que de pai e mãe rúim iguar jararaca o mundo
tá chêi. Só tô falano dos bão.
E fui, fui siguino esse meu pensamento inté ele cansá.
Quando ele parô, bem cansadão, lingua pra fora
palmo e mei, foi que eu pude vê cum mais clareza que Deus,
seno nosso Pai - dos bão, da mió ispéci
- num quiria de forma arguma judiá de mim e muito menos
da minha adorada Isulina. Intendi também que esses assunto
que falei pro sinhô num tem sulução. Pur
isso é que nóis chamamo esses um ai de mistéro.
Eles foge do nosso intendimento. Intendimento de nóis
tudim, seja de um quais anarfabeto igualeu ou de um daqueles
que vive cum a cara socada nos microscope bisbiotano a vida
daqueles bicho bem miúdim que vive por tudo que é
canto, que cabe em quarque lugá. O mió que eu
tinha a fazê era larga mão de tentá intendê
esses mistéro que involve a vida de todos nóis.
Me pinitenciei, pidi perdão a Deus que, seno bom pai,
como de fato é, pur certo já me perduô,
bem perduado. Me arrependi bem arrependido de todas essas bobage
que andei pensano, mode que, sem esse arrependimento, isso tudo
num passava de farsidade, e farso num sô e nunca fui!
_
Acho, meu São Judas Tadeu, que já amolei o sinhô
dimais cum esse meu sintido disabafo, cum essa lamúria
quais sem fim. Sempre quando cunverso com o sinhô, fico
levizim iguar o vento. É assim que me sinto agora!
_
Cumo o sinhô sabe, sô mais de agradecê do
que de pidi. Mais dessa feita, tenho um pidido bem serozão
pra lhe fazê... Eu quiria, de todo meu coração,
que o sinhô me atendesse, imbora seno esse pidido dos
mais istranho que já fiz em toda minha vida. É
o siguinte: eu quiria que o sinhô providenciasse junto
ao Pai uma passage pra eu podê encontrá a minha
Isulina. Pro sinhô que é secretaro particulá
Dele, isso vai sê facim, facim de cunsigui, né
mesmo, sô? Pro sinhô até o que é impussive
se torna pussive, num é verdade? É pur essas e
pur otras que o sinhô tem um tituluzão bem agraduado,
bunito até: 'São Judas Tadeu, o santo das causa
impussive'. Tá veno só! Já tô até
de mala e cuia pronta pra viage mode podê mincontrá
com a minha amada Isulina. Às veiz, quem sabe, além
deu mincontrá cum ela, pudia inté cunhecê
o sinhô pessoarmente: apertá a sua mão,
bejá o seu sagrado manto vermei que fica inriba do otro,
verde. Nóis vamo nos sentá - o sinhô vai
dexá o seu inseparave evangéio e seu cajado de
banda, puruns minutim - e vamo prusiá muito sussegadamente
lá no seu rancho. Num vejo a hora disso tudo acuntecê!
_
Bão, meu amigo, eu já vô m'imbora. Me discurpe
de novo por tanta falação, mais esse é
o meu jeito. Espero, cum muita fé, que o sinhô
atenda esse meu pidido. Meu úrtimo pedido aqui nessa
terra. Intão, inté mais vê e muitobrigado
por tudo, meu São Judas Tadeu!"
Terminado
esse diálogo-oração, Geraldo se persigna
novamente e se retira da Igreja. Dirige-se ao cemitério
municipal. Localiza, rapidamente, a sepultura de Isolina. Ali,
de pé, faz suas orações. Após terminá-las,
diz:
_
Pois é, minha doce Isulina, breve, muito breve vô
te incontrá adonde ocê tivé. Já falei
com o meu São Judas Tadeu e ele ficô de ajeitá
essa minha viage pra ficá juntim docê de novo!
Matá bem matada essa sodade que eu tô docê!
Hoje, eu vim cá só pra te dá esse recado
e dizê que nada, nadinha mudô cum a sua partida,
Isulina, mode que continuo te amano do mesmo jeito: muito, muitissimo!
Intão, inté mais vê!
Passaram-se
alguns meses. Exatamente, quatro meses. Alfredo retorna à
fazenda do amigo. No caminho de volta para a cidade, lembra-se
do convite do seu Geraldo: "Quando pudé, dê
uma passadinha lá no meu rancho pra prusiá mais
um poco e tomá um café cumigo!". Fez o que
havia prometido, embora já sendo noite alta. Dirigiu-se
para a chácara do seu Geraldo. Seu amigo Geraldo, podia-se
dizer assim.
No
enorme ipê amarelo parou. O colchete fechado. Buzinou
algumas vezes. Nada de alguém aparecer. Segue em frente.
Pára na chácara vizinha. Pede informação
a respeito de Geraldo.
_
O Gerardo Sirva? Ele morreu tem mais ô meno uns quatro
meis. Morreu da mió morte: de repente. Ele morreu drumino,
uma semana dispois de sua muié, a Isulina. Eles cumbinava
dimais da conta, só o sinhô veno!
Com
essa triste resposta, Alfredo é atraido por uma estranha
força que guia seus olhos para o céu. Vê,
contrastando com toda a escuridão reinante, duas estrelas.
Somente duas. Um casal de maravilhosas estrelas de igual tamanho,
brilho e beleza. Extasiado com essa visão, Alfredo consegue
balbuciar:
_
Geraldo e Isolina...
Mais
extasiado ficou Alfredo, quando viu as duas estrelas se aproximando
uma da outra até se transformarem em uma só estrela.
Estrela única, mais maravilhosa que as duas que ele vira
há pouco. Em seguida, ela aumenta e diminui seu brilho
por três vezes consecutivas, como se estivesse piscando,
e se apaga definitivamente.
Alfredo,
então percebe que o amor quando é verdadeiro supera
a razão e a compreensão humanas. Sendo assim,
consegue driblar até mesmo a morte, inimiga de todos,
principalmente daqueles que amam. Amor verdadeiro. Amor puro.
Amor simples. Amor sertanejo...
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