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COLOCAMOS ESTA HOMENAGEM A FAMÍLIA DIAS            Home

Folia de Reis

Da porta da sala, sempre aberta, dá para ver os troféus, são mais de trinta. Em cima e ao lado, na parede, está um quadro com o retrato antigo de um jovem vestido de farda. "Foi quando eu prestei o serviço militar", conta José Dias dos Reis, ou melhor, Sô Dias, o dono da casa, que nasceu ali há 68 anos e nunca viveu em outro lugar. A cidade é Três Pontas, ao sul de Minas Gerais, entre serras e pés de café. Os troféus são por competições e apresentações de Folia de Reis, uma tradição na cidade e na família de Sô Dias, a primeira de que se tem notícia a montar uma companhia de Reis em Três Pontas, no ano de 1870, com o nome de "Família Dias", da qual Sô Dias faz parte desde o tempo de calças curtas, quando era apenas moleque aprendendo a cantar, dançar e recitar no ritmo da Folia.

Filho único de Joaquim Dias Neto e Ana Teresa de Jesus, esse senhor simpático, de cabelos brancos, é o embaixador da Companhia desde 1993, quando Domingos Dias lhe passou essa importante função. O embaixador é a alma da Folia, é responsável por tudo, desde a ordem das pessoas à guarda da bandeira. Além disso, é ele quem faz os versos principais. "Todos podem cantar, mas o embaixador é quem canta os versos de acordo com a profecia, não pode recitar nem um verso que não faça parte da profecia e, por isso, é preciso ter muito conhecimento dela", explica Sô Dias, mostrando dois livros antigos, de muitas páginas, com o título de "O Mártir do Gólgota - Histórias do Oriente", de Henrique Perez Escrich. Nesses dois volumes estão as histórias da profecia à qual se refere o embaixador, "São passagens da viagem dos três reis magos (Gaspar, Baltazar e Belquior) até Belém, o namoro e casamento de Maria e São José e o nascimento do menino", diz. E embora a cantação dos versos não possa sair do contexto da profecia, é o embaixador que os cria, de improviso, em cada porta, em cada festa, como um repentista. "Tem alguns versos que eu gosto mais, mas tudo depende da situação, um verso que eu canto nessa casa já não serve para aquela outra", afirma.

De porta em porta são seis dias de festa. Com início no primeiro dia do ano e encerramento no dia de reis, 6 de janeiro, quando a bandeira retorna à casa do embaixador. "Depois que a bandeira sai, ela só pode voltar no fim da festa", explica Sô Dias. A origem de tal tradição pode estar atrelada ao passado, quando a cidade era tão pequena que os foliões saíam para apresentar-se na zona rural. "A gente ia à pé, de uma roça para a outra, dormindo em qualquer lugar, no paiol ou no relento", lembra. E quem pensa que a cantoria ia solta pelo caminho, engana-se, os versos só podem ser cantados na casa da pessoa. "Se tem só o menino, a gente faz um verso, se tem o presépio aí depende se é grande ou pequeno, agora se não tem nem menino nem presépio, a gente canta um verso para quem estiver na casa, mas só", explica Sô Dias. Por isso, quem conhece a tradição e quer que os foliões se demorem um pouco mais, trata logo de fazer um belo presépio ou coloca um menino Jesus na manjedoura, nesse caso, o verso pode ser o seguinte:

A terra não tinha forma
Mas o mundo se movia
O espírito de Deus
Sobre as águas existia

Ou então, no agradecimento, talvez o embaixador recite um dos seus favoritos:

A chuva caiu na terra
O homem fez a plantação
Da semente veio o trigo
E do Trigo veio o pão

A engrenagem da companhia

Quando vemos a apresentação de uma companhia de reis, não dá para imaginar como é repleta de rituais, hierarquias e tudo o mais que faz dela uma das mais ricas festas do folclore brasileiro. Para ter uma vaga noção, basta ver a complicada engrenagem da "Família Dias" que, além da mais antiga da cidade, é uma das mais numerosas. São 27 componentes, a grande maioria de membros da família, que se dividem nos sete tipos de vozes - requinta, tipe, contra, cacetero, 2a resposta, 1a. resposta e embaixador - e na "tocação" de violas (o instrumento mais importante), violões, sanfonas, pandeiros, triângulos, caixas e qualquer outro instrumento de corda.

Há ainda os marungos, dois adultos e um menino, que se fantasiam com fardas e máscaras. Um desses marungos é o garoto Lucas, de 14 anos que, desde os quatro faz parte da companhia. Depois de 9 anos como marungo menino, em 2004 Lucas deu um salta na hierarquia e agora já é marungo adulto. O restante dos componentes usa uniforme, geralmente calças e camisas sociais, como pede a importância do evento. Sô Dias tem em casa mais de 27 camisas guardadas, que ele nunca mais vestiu. "A gente pega um amor no uniforme, que nem tem coragem de usar depois", diz. Esse ano, além do uniforme, ele leva um broche de estrela dourado com pontos brilhantes, recebido como homenagem da prefeitura há alguns anos por ser o embaixador da companhia mais antiga de Três Pontas.

Outra tradição da Família Dias é a catira, uma dança folclórica muito tradicional no norte de Minas Gerais. "Não faz parte da Folia de Reis, e a gente dança ela o ano todo, sempre que está numa festa, em reunião na casa de alguém", conta. Sô Dias tem orgulho de dizer da beleza que é a catira e a Folia de Reis, em especial. "A gente nem acredita quando está no meio da Folia e olha assim, vê aquilo tudo, aquela maravilhava e a gente não sabe como conseguiu fazer aquilo".